3º DIA: VOCÊ SABE LIDAR COM O ÓCIO?

Crise dos 30 - labrador

“Entregue-se, sem vergonha e sem sentimentos de culpa, às delícias do ócio. Aprenda a nadar sem ter de chegar a lugar algum, simplesmente gozando o mundo que nos cerca!” – Rubem Alves

Hoje é o terceiro dia do Desafio dos 222 Dias. E hoje, exatamente hoje, eu cheguei a uma conclusão: EU NÃO SEI NÃO FAZER NADA.

Pronto, é isso. Eu simplesmente não consigo fazer as pazes com o ócio.

Sei que você deve estar rindo ao ler isso, eu até corro o risco de você me achar uma completa babaca pelo que vou te contar agora, mas vou te contar mesmo assim: não conseguir ficar em paz com o ‘não fazer nada’ tem se tornado a pior das minhas prisões. A mais improvável, aquela que eu jamais poderia ter previsto.

Continue lendo que eu vou te explicar…

 

Minha decisão de sair do meu emprego foi tomada com bastante cautela, após muitas conversas com o Henrique e algumas continhas rabiscadas num bloco de anotações, o que nos deu a certeza de que daria para sobreviver com apenas metade do dinheiro que ganhávamos até então. Bem, pra falar a verdade, certeza mesmo a gente não tinha, mas tínhamos indícios de que se apertássemos o cinto consideravelmente nas nossas saidinhas semanais seria possível viver (leia-se: pagar o aluguel, comprar comida e abastecer o carro) apenas com o salário dele.

A decisão foi tomada com base nisso, mesmo eu não sabendo exatamente o que é que eu iria fazer. O acordo era que eu tiraria o tempo que fosse necessário pra “me redescobrir” (prefiro usar esse termo do que o “me encontrar”), sem pressa e sem nenhuma pressão ou obrigação. Estávamos juntos nessa, e ter o apoio de alguém próximo nessas horas faz toda a diferença!  À princípio, os planos eram que eu me dedicaria ao meu processo de coaching e continuaria estudando e me concentrando em aprender algumas coisas que eram importantes e completamente novas pra mim (por exemplo, como criar um site, o que foi uma conquista enormeeeeeeeeeeeeee já que eu não entendo absolutamente nada dessas tecnologias. Pra você ter uma ideia, não sei como publicar um vídeo no YouTube e nem como configurar um endereço de email no celular, então acho que dá pra imaginar que ter colocado um site no ar em 2 dias tenha sido motivo de muita comemoração aqui em casa!).

A verdade é que eu (e sei que você também) passei anos e anos da minha vida dormindo bem menos do que meu corpo precisava, perdendo muito mais horas no trânsito do que eu gostaria e sonhando com o sossego do final de semana, só pra descobrir que tudo o que não dava tempo pra fazer de segunda à sexta era automaticamente transferido para o sábado, o que significava que o tempo pra fazer nada simplesmente não existia.

Eu sonhava com o dia em que eu teria tempo.

Tempo, simples assim, onde eu poderia escolher entre sair pra dar uma volta, assistir tv, ler um livro ou simplesmente me atirar no sofá e não me preocupar com nada. E agora que eu posso fazer tudo isso, seja num sábado ou numa manhã chuvosa de segunda-feira, eu descobri que eu não me permito fazer algo sem que esse algo esteja necessariamente me levando a algum lugar.

Ocio - Crise dos 30

Existe uma vozinha estridente na minha cabeça que me diz que eu preciso estar constantemente produzindo, afinal, eu não estou de férias, eu estou criando a vida que eu decidi que eu quero viver! Eu não posso parar, nunca!

E assim já se vão quase dois meses onde não tive sequer um dia de folga. Me impus uma rotina de trabalho de 12h por dia, 7 dias por semana, e isso num momento onde eu, apenas eu e mais ninguém, estou no controle da minha rotina e do meu tão sonhado equilíbrio. Hoje posso afirmar que sou a pior de todas as chefes que eu já tive.

Nessa busca por viver uma nova vida, as coisas mais simples se tornam grandes desafios.

Isso tudo me fez pensar em como é incrível que a gente passe anos implorando por liberdade e, quando finalmente conseguimos experimentar um gostinho dela que seja, somos os primeiros a criar as nossas próprias prisões.

Passarinho criado em cativeiro tem que reaprender a viver em liberdade. Alguns não conseguem e vão pra sempre precisar da gaiola – já não sabem viver sem as grades, sem a comida na hora marcada. Às vezes fico me questionando se já não seria tarde demais…

Love,

Carol

Carol Sales

Paulista que antes residia em Auckland (agora em período de transição), gosta de sol e mar, de chuva e aconchego, de frio e cobertor. Hoje. Talvez amanhã não goste mais.
Acredita que nada acontece por acaso e que a vida dá seu jeito, e vive numa eterna batalha entre ir pra academia, ler, escrever ou ficar de bobeira pesquisando sonhos na internet - sonhos esses que 99.9% das vezes tem a ver com definir o próximo destino.