32° DIA: RELATOS DE UMA INQUIETA – “O VALOR DE UM SONHO”

Trabalhar na Disney - Crise dos 30

“A continuação natural do Relatos de Uma Inquieta seriam dois textos que eu já escrevi, logo que coloquei o Crise dos 30 no ar – então claro que não vou escrever de novo Crise dos 30 - Blink Esses textos se chamam MAIS DE MIM e IF YOU CAN DREAM IT, YOU CAN DO IT! Se você não os leu ainda, sugiro que clique nos links acima e leia antes de continuar a jornada do Relatos de Uma Inquieta comigo, pra não se perder na história…”

 

Ter realizado o sonho de trabalhar na Disney foi o que fez que minha ficha realmente caísse. Foi como se um raio tivesse caído na minha cabeça e me feito entender, letra por letra, o real significado dessa frase que eu já tinha lido tantas e tantas vezes: “Se você pode sonhar, você pode realizar!”

Eu sei que falando assim sobre as tão clichês ‘viagens pra Disney’ que tanta gente sonha em fazer um dia, dá a impressão de ser um assunto meio tosco, coisa de menina mimada e sem nada muito especial. É… em muitos casos pode até ser mesmo apenas uma viagem clichê e tosca, talvez um lugar do mundo para o qual nem se almeje mais voltar tão cedo. E eu entendo. Eu entendo quem ame e entendo quem odeie. Eu entendo quem considere aquele o paraíso na Terra e entendo também quem critique e considere o local mais robotizado e sem alma do planeta.

Eu e o Castelo da Cinderela - como não poderia deixar de ser
Eu e o Castelo da Cinderela – como não poderia deixar de ser

Eu já fui absolutamente fascinada pelo lugar. Até alguns anos atrás, se pudesse, iria todo ano. Hoje em dia penso diferente, pois existem milhares de outros lugares na minha lista de desejos de viajante que atualmente despertam muito mais meu interesse do que Orlando (embora eu ainda queira sim voltar pra lá, de preferência, em uma super viagem em família!). Independente de algumas coisas terem mudado na forma como eu vejo o lugar, ter ido pra Disney foi simplesmente a experiência mais sensacional da minha vida! Até hoje ela ainda tem esse título, e acho que sempre vai ter, não importa quantas surpresas e realizações a vida ainda possa me proporcionar.

Ter trabalhado na Disney tem um lugar tão especial na minha história por um motivo muito claro: foi ali que eu provei pra mim mesma que eu tinha o poder de batalhar para transformar os meus sonhos em realidade. Eu podia fazer isso! Eu tinha feito isso! E quando você se descobre com esse poder… Ah, você se sente como se nada mais pudesse te parar!

Sonhadora incurável que sempre fui, a vida inteira me deixei ser guiada pelos meus sonhos. Esse é um dos principais traços da minha personalidade e eu sempre soube disso, desde criança. Acontece que ter ido pra Disney me ensinou algo que até então eu ainda não sabia: sonhar é muito bom, mas realizar um sonho é ainda melhor! Eu descobri ao ir pra Disney que de nada vale passar a vida sonhando e alimentando essa capacidade incrível (e necessária) de sonhar, se nunca realmente nos mexermos para tornar aquele sonho real.

Devidamente uniformizada, finalizando um dia de trabalho
Devidamente uniformizada, finalizando um dia de trabalho

Foi também através da oportunidade que tive de trabalhar na Disney que eu fiz outra descoberta importante: a vida pode nos surpreender com a forma que os nossos sonhos são realizados.

Eu por tantos anos sonhei em ter dinheiro pra poder fazer uma viagem de férias de, quem sabe, duas semanas pra Orlando, com tempo suficiente pra conhecer todos os parques e poder ir nos brinquedos sobre os quais eu já tinha lido absolutamente tudo. Fazia questão de ir durante a baixa temporada, pois pra mim seria uma tortura ficar presa em filas enormes e acabar não tendo tempo suficiente pra visitar todas as atrações que eu queria. Esse era o meu sonho e essa era a minha preocupação. O que a vida me deu? Dois meses e meio indo trabalhar num parque da Disney todos os dias, com passe livre para visitar todos os outros parques do complexo nos meus dias e horários de folga. Eu posso dizer que fui em absolutamente todas as atrações dos parques (menos nas que eu não podia entrar por já ser crescida demais), e todos os meus preferidos foram repetidos dezenas de vezes. Se eu tinha que começar a trabalhar apenas às 11 da manhã, eu chegava ao ponto de acordar cedo e ir pra determinado parque apenas para andar em dois ou três brinquedos, e depois ia trabalhar. Eu conheci os bastidores e vivi as dores e as delícias de ser um Cast Member: fiz os treinamentos, assisti a todos os shows, conheci Mickeys, Belas e Feras, vi algumas Minnies e Plutos sem cabeça. Despenquei da Torre do Terror com as luzes acessas, algo impossível se você não for funcionário do parque. Me esbaldei na montanha-russa do Animal Kingdom antes mesmo dela ser aberta ao público. Perdi as contas de quantas vezes andei sozinha na montanha-russa do Aerosmith (a melhor, claro, pois era onde eu trabalhava), com luzes acesas e breu total, com a velocidade reduzida e também mais rápida do que o normal. Subi nos trilhos da montanha para fazer o treinamento de resgate (é, nem todos os momentos foram tão fantásticos assim…).

Eu percebi que aquele meu sonho de quase 10 anos atrás tinha se transformado em algo muito maior, e que a vida tinha sido muito generosa comigo: eu só precisei estar atenta e aberta às possibilidades que se descortinaram à minha frente.

 Trabalhar na Disney - Crise dos 30

O PROCESSO

Eu tinha 20 anos, estava no penúltimo ano da faculdade e era estagiária na maior operadora de turismo da América Latina, a CVC. Como estagiária, claro que ganhava pouco. Lembro que eu ajudava a pagar a faculdade e não sobrava muita coisa. Eu estava num relacionamento super sério, já estávamos juntos há quase 4 anos e ele trabalhava na linha de produção de uma fábrica, onde quase todo o salário ia também pra pagar a faculdade. Meus pais naquela época não estavam nas melhores condições financeiras, e eu sabia que mesmo o programa de intercâmbio da Disney sendo um dos mais baratos do mercado (só perdia pro Au Pair), eu ainda assim, realisticamente, não teria dinheiro pra pagar caso fosse aprovada nas entrevistas.

Lembro exatamente do meu pai me dizendo: “Não se preocupe com isso agora. Se concentre em passar no processo seletivo e depois a gente pensa no que fazer. Se precisar pegar empréstimo no banco a gente pega”. Mas eu não queria isso. Não queria que a realização do meu sonho representasse uma dívida pros meus pais.

De qualquer forma, eu segui o conselho dele: me concentrei em ser aprovada no processo seletivo, e essa foi uma das coisas mais difíceis que eu poderia ter feito. Como eu chorava! Me sentia um patinho feio no meio de toda aquela galera que parecia ter estudado inglês a vida inteira, e eu ali, com minhas respostas decoradas…

Eu maio de 2005, quando eu fui assistir a primeira palestra sobre o programa, lembro que fiquei absolutamente alucinada com a possibilidade, mas também muito insegura. O único motivo que me fez sair de lá feliz da vida foi o fato de ter respondido a pergunta do palestrante:

“Qual foi o primeiro nome do Mickey, antes dele ser Mickey?”

Mortimer.

Meu Tigrão

Pra mim era algo tão banal, eu sabia aquela historia de cor e salteado, e acabei ganhando um Tigrão de pelúcia de presente pela resposta certa, que virou o meu amuleto durante todo o processo – sempre que eu olhava pra ele, pensava: “Eu posso fazer isso!”. Ainda assim, saí daquela palestra sem coragem de pegar uma senha pra primeira entrevista. Já estava anunciado que em Agosto teria uma nova palestra, e eu decidi então que eu não iria arriscar ir mal na entrevista por falta de preparação: resolvi me concentrar e turbinar meu inglês durante aqueles três meses, e voltar pra pegar a senha em Agosto, com mais confiança e bem mais preparada.

E foi isso que eu fiz. Trabalhava tempo integral e estudava à noite, mas sempre dei um jeito de estudar inglês por conta própria: eu tinha apenas três meses pra fazer aquilo dar certo, e eu dei o meu melhor.

Quando finalmente fiz a primeira entrevista, quase morri. Voltei pra casa e chorei, achei que tinha ido super mal. Daí recebi o e-mail dizendo que eu tinha sido selecionada pra segunda fase e dali pra frente foi tudo muito rápido. Assisti a palestra com o pessoal da Disney que foi ao Brasil e, no dia seguinte, já fiz a segunda entrevista com eles. Meu Deus, como eu estava nervosa! Meu maior receio sempre foi meu nível de inglês, eu me sentia absolutamente despreparada pra aquilo e, pra piorar, as entrevistas eram sempre feitas em dupla, ou seja, eu e mais um candidato seríamos entrevistados juntos. Lembro que enquanto eu aguardava minha vez, me deram um formulário pra preencher onde eu já tinha que informar minha ordem de preferência nas funções disponíveis caso eu fosse aprovada no programa. Podia escolher trabalhar em alimentos e bebidas, em recepção de hotel, fantasiada de personagem, na equipe de limpeza ou nos brinquedos dos parques. Eu não pensei duas vezes: primeira opção = Operations (trabalhar nos brinquedos dos parques). Já conseguia me imaginar trabalhando nas filas dos brinquedos, ao ar livre, respirando toda aquela atmosfera de parque de diversões.

Aí me chamaram pra entrar na sala.

Respirei fundo, tentei esconder meu desespero e fui. A entrevista começou e a primeira coisa que ela perguntou pra menina que estava sendo entrevistada junto comigo foi: “Qual sua profissão?”, no que a menina respondeu :“Sou professora de inglês”.

Pronto. Na mesma hora o vestígio de confiança que eu tinha foi pelo ralo. “Que sorte a minha!”, era só o que eu pensava. Com esse inglês de merda vou ser entrevistada justamente ao lado de uma professora de inglês?

Nem precisa dizer que cheguei em casa e chorei, né?

 

Trabalhar na Disney - Crise dos 30Avança a fita pra dia 15 de setembro de 2005. Chego pra trabalhar e abro meu e-mail, como sempre faço. A primeira coisa que vejo é um e-mail com o título “Disney Results”. Eu demorei uns 10 minutos pelo menos pra ter coragem de abrir aquele e-mail: levantei, tomei água, fui no banheiro, e tremia, tremia que nem uma louca. Quando finalmente tomei coragem, sentei na minha cadeira, abri o e-mail e li apenas a primeira linha, que dizia: “CONGRATULATIONS!”. Depois daquilo não consegui ler mais nada. Comecei a chorar de soluçar, meus colegas de trabalho ficaram todos apavorados pois acharam que alguém tinha morrido, e eu simplesmente não conseguia explicar. Pra ajudar, eu não tinha contado pra minha chefe que eu estava fazendo entrevistas pra um programa de intercâmbio, então nem podia dizer abertamente o que tinha acontecido. Lembro que liguei pra minha mãe, e ela chorou do outro lado da linha. Cheguei em casa e estavam todos me esperando com taças e espumante, pra brindarmos essa conquista tão importante!

Eu ainda não conseguia acreditar que aquilo estava acontecendo, e só conseguia pensar que, se eles não tinham me mandado o e-mail por engano, eles com certeza me colocariam em alguma posição onde eu tivesse pouca ou nenhuma interação com os visitantes, tipo na cozinha ou quem sabe na faxina (naquela época, mal sabia eu que quem trabalha na limpeza são os que mais conversam com os turistas). No dia seguinte, recebi uma ligação: eu embarcaria dia 15 de novembro e tinha sido aprovada para – PASMEM – Operations!

Trabalhar na Disney - Crise dos 30

A QUESTÃO FINANCEIRA

Passadas as comemorações, precisamos voltar a pensar no assunto que tínhamos deixado de lado todos esses meses: a questão da grana. Eu tinha que pagar a passagem aérea e algumas taxas, além do visto e de precisar ter pelo menos uns 400 dólares no bolso pra pagar as primeiras duas semanas de aluguel e comprar comida, enquanto não recebesse o primeiro salário.

A primeira vez que pisei no Magic Kingdom
A primeira vez que pisei no Magic Kingdom

Eu tinha um pouquinho de dinheiro guardado, mas não dava nem pra começar a brincadeira, e eu não queria de jeito nenhum que meus pais tivessem que pegar empréstimo no banco. No final das contas, quem pagou a passagem foi meu namorado, que tinha acabado de receber a participação nos lucros da empresa e praticamente colocou o dinheiro todo na minha mão. Prometi que trabalharia dobrado se precisasse enquanto estivesse lá pra poder voltar com dinheiro suficiente para pagá-lo de volta, e decidi que não iria aproveitar os 30 dias de visto de turista que eu receberia no final do programa (a maioria da galera acaba indo pra Nova York ou pra Califórnia assim que acaba o programa, mas eu decidi que não iria pois guardaria dinheiro pra pagar minha dívida – embora ele dissesse que não precisava). Naquela época, estávamos pensando em ficar noivos e quem sabe marcar o casamento pra depois que eu me formasse na faculdade, então qualquer grana que eu conseguisse trazer de volta seria provavelmente destinada ao início do nosso futuro juntos.

Meus pais compraram minha primeira mala de rodinha emoticom, pagaram várias das taxas e cuidaram de tudo o que eu pudesse precisar levar na viagem. Eu usei o dinheiro que tinha pra comprar dólar pra levar, mas era muito pouco. Inteirei com 20 dólares que um professor me deu pra comprar uma camiseta pra ele e com mais uma grana que minha prima tinha me dado pra comprar bonecas das princesas pra minha priminha (que hoje já tem 18 anos… Ninguém merece!) e foi esse o dinheiro que usei pra pagar a primeira semana de aluguel e fazer as compras de supermercado na primeira semana que cheguei em Orlando.

Lembrar disso me faz perceber que eu tive vários motivos pra desistir e pra não acreditar, mas ter me permitido seguir em frente foi a melhor coisa que eu poderia ter feito por mim mesma.

Boss 4Ever
Boss 4Ever

Eu vivi a experiência mais marcante da minha vida, a que eu considero ser o grande divisor de águas na minha história. Daquele momento em diante eu nunca mais parei de sonhar, isso porque ali eu descobri que eu realmente poderia transformar meus sonhos mais insanos em realidade. Se alguém tivesse dito pra aquela menina de 12 anos que passava horas pendurada no telefone com agentes de viagens, que no dia 15 de novembro de 2005, aos 20 anos, ela estaria embarcando em sua primeira viagem internacional pra trabalhar na Rock’n’Roller Coaster do Hollywood Studios por 2 meses e meio, ela provavelmente não teria acreditado. Consigo até ouvi-la rindo e dizendo: “Não precisa de tudo isso, não! Seria bom demais pra ser verdade. Eu me contento com as duas semanas”.

É… A gente realmente não sabe de nada.

Love,

Carol

Carol Sales

Paulista residente em Auckland, gosta de sol e mar, de chuva e aconchego, de frio e cobertor. Hoje. Talvez amanhã não goste mais.
Acredita que nada acontece por acaso e que a vida dá seu jeito (contanto que a morte não seja o assunto da rodinha) e vive numa eterna batalha entre ir pra academia, ler, escrever ou ficar de bobeira pesquisando sonhos na internet - sonhos esses que 99.9% das vezes tem a ver com definir o próximo destino.