42° DIA: QUANDO É DIFÍCIL ATÉ LEVANTAR DA CAMA

Crise dos 30

Tem dias que, mesmo depois do privilégio de 9 horas de sono profundo, a gente simplesmente acorda sem ânimo nenhum. Nadica de nada. Parece que até mesmo as coisas mais simples, como levantar e ir fazer xixi, demandam uma energia absurda; uma energia que, eu tenho certeza, não existia no meu corpo naquele momento.

Acordei às 8h da manhã já totalmente desanimada, e levei mais de uma hora – isso mesmo, MAIS DE UMA HORA! – pra ter coragem de levantar da cama. Tudo bem que o inverno neozelandês contribua bastante para esse estado de espírito, mas ainda assim, levar mais de uma hora pra conseguir sair da cama em plena quinta-feira, pra mim, é um pouquinho demais…

Ué?! Mas você não tem mais que acordar cedo pra ir pro escritório! Se ficar um pouquinho mais na cama, não tem problema, é só rearranjar seus horários e dar conta dos seus afazeres até mais tarde. Por que não?

Crise dos 30

Como você pode perceber, a minha dificuldade em lidar com o ócio ainda persiste. A impressão que eu tenho é que eu não relaxo, nunca! Mesmo não tendo mais obrigações como acordar super cedo ou manter uma rotina de horários inflexíveis, o sentimento que eu tenho é que se eu “afrouxo” demais as rédeas, eu estou me dando permissão pra sair dos trilhos na mesma hora. Da mesma forma que eu não me permito deitar no sofá e ler um livro no meio da tarde, eu também não me permito ficar de preguiça na cama, nem mesmo aos finais de semana (principalmente agora que meus dias não têm mais essa divisão clara entre dias úteis e dias inúteis). Pra ficar bem comigo mesma, eu preciso me sentir produtiva, o tempo todo! É como se eu não conseguisse aproveitar a liberdade que minhas escolhas desde agora já me trazem; como se eu tivesse que constantemente prestar constas pra alguém, ou melhor, pra mim mesma.

Falando assim pode até parecer algo banal, mas é algo banal que me incomoda muito e afeta a minha produtividade (e por que não dizer, minha paz interior?), e eu vira e mexe me pego tentando achar alguma explicação pra eu me sentir assim. Umas das explicações que eu dou pra mim mesma é que eu ainda estou lidando, mesmo que em proporções menores, com a tal da “depressão situacional”. O pior dela, embora já tenha passado, ainda é uma realidade muito recente na minha vida; e eu percebo que, muitas vezes, o que eu tenho é medo de me deixar levar pelo desânimo: uma vez que eu me rendo ao sofá, eu sei o quão difícil é levantar, então recheio meus dias com obrigações e deadlines que existem somente na minha cabeça.


Crise dos 30Qual será o meio termo entre ter determinação, garra e atitude para fazer acontecer, e se permitir momentos de puro ócio (criativo ou não) como uma forma de recarregar as energias e simplesmente ser?

Bem, esse é um assunto com o qual eu terei ainda que lidar por muitos e muitos anos da minha vida, e eu sei disso. Mas tem dias que esses questionamentos se fazem mais presentes, e hoje que eu acordei num estado de espírito meio down, todos esses pensamentos imediatamente inundaram minha cabeça.

Quando finalmente tomei coragem de me arrastar pra fora da cama, a primeira coisa que fiz foi vestir minha calça jeans. O Henrique na mesma hora já me perguntou: “Ué, você não vai fazer sua yoga hoje?”. (se você é novo aqui e não sabe sobre essa história do yoga, leia aqui)

“Agora não, não to afim. Vou deixar pra fazer mais tarde”.

E assim eu fui arrumar a cama, escovar os dentes e colocar roupa pra lavar, enquanto o Henrique foi preparar nosso café da manhã. Depois que terminei tudo, me deu uma baita sensação de vazio. Um sentimento estranho, que até então eu nunca tinha sentido antes: ME DEU VONTADE DE FAZER MINHA AULA DE YOGA!

Sim, vontade! Até então, eu fazia sim porque eu queria, mas muito mais por me manter firme na minha decisão e tentativa de criar um novo hábito do que por vontade propriamente dita. Sentir VONTADE de fazer a aula, numa manhã super fria de inverno, foi um sentimento novo e até meio estranho pra mim…

Eu resolvi não correr o risco de deixar essa vontade passar: troquei de roupa na mesma hora e já liguei o computador. Escolhi uma aula bem curtinha, pois o café já estava quase pronto, e me dediquei por 17 minutos a alongar meu corpo, observar minha respiração e me concentrar para obter o equilíbrio necessário para fazer algumas das poses. Foram 17 minutos que  passaram como que num piscar de olhos.

Eu já tinha percebido o quanto essa nova rotina matinal tinha influenciado positivamente o meu dia, masCrise dos 30 hoje eu consegui perceber que esses 20, 30 minutos de yoga pela manhã têm sido verdadeiramente os responsáveis por estabelecer o meu humor e a forma como eu encaro o restante do meu dia. É como se através dos exercícios eu conseguisse me centrar, me equilibrar, e também me motivar a fazer as coisas que me propus a fazer naquele dia. Hoje, pela primeira vez, eu pensei: será que essa vai mesmo ser a minha nova forma de começar meus dias? Será que eu estou mesmo criando um novo hábito, um hábito saudável? E eu me senti bem.

Quer saber o melhor? Quando terminei a aula e me sentei pra tomar café, ouvi do Henrique que meu humor tinha mudado completamente! Podia-se dizer que eu tinha sido duas pessoas diferentes durante a manhã: antes da yoga e depois da yoga, e o interessante é que era exatamente assim que eu me sentia.

Fiquei feliz. Fiquei feliz por perceber que minha mente está reconhecendo, de alguma forma, uma nova atividade como algo que tem sido positivo não apenas pra minha saúde física, mas também emocional. E fiquei feliz por me perceber desafiando o frio, a tristeza, a preguiça e o mau-humor, e descobrindo que uma decisão que eu tomei 3 semanas atrás já está me trazendo benefícios observáveis também por outras pessoas.

Eu que sempre falei tanto na importância de tomarmos as rédeas da nossa própria vida, nunca tinha percebido que a forma mais eficaz de fazermos isso é através das coisas mais simples, de pequenas atitudes, da observação constante. Não tem a ver com decisões grandiosas, com chutar o balde, pedir demissão, mudar de casa, de carreira, de país. Ou melhor, tem a ver sim, mas mais importante que isso é conseguirmos tomar as rédeas do nosso próprio corpo e da nossa própria mente. É se observar. É perceber o que faz bem. É se redescobrir através de novas paixões, novos desejos, novas vontades.

Love,

Carol

Carol Sales

Paulista que antes residia em Auckland (agora em período de transição), gosta de sol e mar, de chuva e aconchego, de frio e cobertor. Hoje. Talvez amanhã não goste mais.
Acredita que nada acontece por acaso e que a vida dá seu jeito, e vive numa eterna batalha entre ir pra academia, ler, escrever ou ficar de bobeira pesquisando sonhos na internet - sonhos esses que 99.9% das vezes tem a ver com definir o próximo destino.