56° DIA: SOBRE RECONHECER AS PEQUENAS COISAS

Crise dos 30 - beija-flor

“Olhe ao redor”

“Valorize as pequenas coisas”

“Fique atento aos sinais que a vida te dá”

Qualquer pessoa que leia livros, artigos ou acompanhe blogs sobre desenvolvimento pessoal já está careca de ler frases como essas. “Você precisa estar atento aos sinais. Você precisa conseguir aprender a reconhecer as mínimas coisas, os menores avanços, e ser grato por eles”.

Mas se você é um tanto quanto eu e está lendo esse texto, imagino que esteja vivendo uma fase de indecisões e incertezas; esteja infeliz com seu trabalho, questionando seu estilo de vida e se sentindo perdido e sem saída. Num momento como esse, onde as coisas parecem não fazer muito sentido e a vida parece não estar te dando muitas opções, parece que todo esse discurso do “Fique atento aos menores sinais” não faz o menor sentido. Tá tudo esquisito, você está se sentindo num labirinto onde achar a saída parece uma missão impossível, e tá difícil conseguir enxergar algo que não seja esse emaranhado de sentimentos e frustrações.

Crise dos 30 - labirinto emocional

Comigo aconteceu a mesma coisa. Quando em março desse ano tomei a decisão definitiva de sair do meu trabalho e dei meu aviso prévio, eu estava me sentindo totalmente perdida, sem saber exatamente qual deveria ser meu próximo passo. Eu estava num estado emocional bastante complicado e a única coisa que eu sabia era que eu precisava fazer uma pausa na minha vida profissional pra cuidar de mim. Além disso, eu decidi fazer dessa a minha chance de (re)criar minha realidade e apostar num estilo de vida que tivesse mais alinhado com meus valores e sonhos, com a vida profissional e com os sonhos do Henrique que – quem diria? – são totalmente compatíveis com os meus!

Em nossas conversas, quando descrevíamos nosso estilo de vida ideal, sempre dizíamos que nosso sonho era morar 6 meses no hemisfério norte e 6 meses no hemisfério sul, dessa forma fugiríamos pra sempre do inverno! emoticomAté conhecemos pessoas que vivem dessa forma, mas pra mim ainda parecia um sonho impossível. O Henrique, sendo músico, já conseguia até traçar um plano de como viabilizar uma vida assim, mas a verdade é que, considerando meu emprego e o mercado de trabalho no qual atuava (onde até pra tirar 4 semanas seguidas de férias eu tinha que provar por A+B que o pessoal do escritório conseguiria tranquilamente dar conta do recado sem mim) isso era uma utopia sem tamanho.

Sabíamos disso, mas a verdade é que, vira e mexe, o mesmo assunto vinha à tona: sonhávamos em poder ir ao Brasil todo ano, passar quem sabe 2 ou 3 meses com nossas famílias, depois ir pra Europa, onde o Henrique poderia fazer shows e eu trabalharia em toda a questão da logística e divulgação, e depois voltaríamos pra curtir o verão da Nova Zelândia, sem dúvidas o melhor período do ano pra se estar aqui! Não queríamos ser um casal sem paradeiro, sem casa e sem um lugar pra chamar de seu (o estilo nômades digitais hard core não tem nada a ver com a gente), queríamos apenas estar mais perto de nossas famílias sem data engessada pra voltar, viabilizar uma forma de eu poder ajudá-lo na carreira dele e, ainda assim, ter nosso cantinho aqui pros lados da Oceania onde adoramos viver, mas apenas durante cerca de 4 meses por ano.

Não queremos não ter paradeiro, queremos apenas a liberdade de ter dois ou três paradeiros nesse mundão de meu Deus!

Para o Henrique seria possível fazer tudo isso e trabalhar em todos os lugares, mas e pra mim?

Crise dos 30 - Estilo de vida

O meu estado emocional e a necessidade de eu sair do meu trabalho pra me cuidar acabaram se mostrando uma oportunidade interessante para parar de apenas sonhar com nosso estilo de vida ideal e começar a pensar em meios de viabilizar esse sonho.

Ótimo! Na teoria, é tudo muito lindo, mas a verdade é que eu estava desesperada com o fato de não ter mais dinheiro. Não ter um salário caindo na minha conta toda semana (sim, aqui recebemos e pagamos contas semanalmente) me apavorava. Esse era o maior dos ‘poréns’ que me fazia pensar 3.785 vezes e continuar me torturando sempre com as mesmas perguntas: Será que eu devo mesmo sair do meu emprego? Será que eu não estou fazendo uma loucura? Será que eu não estou sendo irresponsável e adolescente?

Eu tomei minha decisão em meio a todas essas incertezas, mas segui o que eu, no fundo, sabia que era o que eu precisava fazer. Durante minha última semana de trabalho, trombei na internet com o lançamento de um curso do Brendon Burchard na Califórnia, um cara cujo trabalho conheci ano passado e virei uma grande admiradora. Sempre achei que esses cursos custariam uma fortuna mas, pra minha surpresa, o valor era super acessível. Quatro dias de treinamento intenso com um profissional que admiro e respeito horrores, e por um valor que eu poderia pagar: era bom demais pra ser verdade! Conversei com o Henrique sobre isso e ele também ficou (positivamente) assustado com o valor. Decidi xeretar as passagens aéreas e descobri uma promoção (que acabaria dali dois dias, lógico) de voos de Auckland para Los Angeles – AI, MEU DEUS! Nós já tínhamos planos de ir ao Brasil no final do ano, mas não sabíamos ainda se daria certo porque as passagens estavam muito caras (isso que dá ter apenas uma cia aérea dominando os voos Oceania x América do Sul) e pra ajudar queríamos ir durante o Natal e o Ano Novo, época do ano mais cara para viajar. Fui fundo nas pesquisas e descobri que, se comprássemos nossas passagens pro Brasil via Los Angeles, ficaria cerca de 30% mais barato do que comprar o voo direto pra América do Sul, o que, por si só, financiava o valor do meu curso.

Crise dos 30 - ViagensConclusão: na sexta-feira, dia 01 de maio, quando acordei pro que seria meu último dia de trabalho, eu já tinha nossas passagens emitidas, meu curso comprado e o visto americano encaminhado. Com isso, estou indo pra Califórnia em outubro pra participar do curso, de lá sigo ao Brasil onde ficarei por três meses e, em janeiro, volto pra Nova Zelândia (não sem antes curtir uma semana de férias em Los Angeles com o amor da minha vida). E eu ainda não tenho um centavo entrando na minha conta: tudo isso vai ser feito com uma grana que iríamos gastar de qualquer forma pra ir apenas ao Brasil, onde seríamos obrigados a ficar no máximo 4 semanas se eu ainda estivesse trabalhando no meu antigo emprego.

Quer saber o mais interessante? Eu não me dei conta de nada disso. Precisei que o Henrique me dissesse, já semanas e semanas depois da minha demissão: “Você já parou pra pensar? Nós vamos ter, ainda esse ano, um gostinho do estilo de vida com o qual passamos anos sonhando! Você não consegue perceber isso?”

Aí minha ficha caiu. Eu, que estava tão preocupada com a falta de dinheiro, não estava atenta pra reconhecer o óbvio, o que estava bem ali na minha frente: eu tomei apenas uma decisão e, no momento que fiz isso, parece mesmo que tudo se realinhou em minha volta, de um jeito que eu nem ousaria sonhar. Quem diria que eu estaria, daqui há menos de dois meses, embarcando pra Califórnia e, depois, podendo desfrutar de três meses seguidos com minha família e amigos no Brasil? Em março, quando enviei meu pedido de demissão, isso era algo totalmente impensável!

E é por isso que o Desafio dos 222 dias tem 222 dias e acaba dia 26 de janeiro de 2016: pois esse é o dia que voltamos pra Auckland pra uma vida que, até lá, quem sabe como vai estar?

Love,

Carol

Carol Sales

Paulista residente em Auckland, gosta de sol e mar, de chuva e aconchego, de frio e cobertor. Hoje. Talvez amanhã não goste mais.
Acredita que nada acontece por acaso e que a vida dá seu jeito (contanto que a morte não seja o assunto da rodinha) e vive numa eterna batalha entre ir pra academia, ler, escrever ou ficar de bobeira pesquisando sonhos na internet - sonhos esses que 99.9% das vezes tem a ver com definir o próximo destino.