58° DIA: RELATOS DE UMA INQUIETA – “THIS TIME FOR AFRICA!”

Cape Town - Crise dos 30

Sábado, 30 de outubro de 2010, 2 horas da manhã: essa era a data e a hora do meu embarque.

Trabalhei na sexta-feira normalmente, cheguei em casa já era noite e tive tempo apenas de tomar um banho, comer alguma coisa e terminar de fechar as malas. Era véspera de feriado prolongado e, nesses casos, você nunca sabe como estará o trânsito em São Paulo: eu poderia levar 1h30 ou 4h pra chegar de São Bernardo até Guarulhos (como prever?), então melhor contar sempre com a pior das hipóteses e sair de casa cedo.

Acontece que eu não fazia outra coisa a não ser chorar. Tomei banho chorando. Jantei chorando. Fiquei uma cara sentada na frente do computador chorando, de soluçar. Minha mãe subiu no quarto e chegou a me pedir pra considerar a possibilidade de cancelar tudo, meia hora antes de sair de casa.

– Como é que você vai embarcar desse jeito, filha? Cancela tudo, fica aqui.

– Vou cancelar e vou fazer o quê? Passar o mês inteiro de férias chorando, sozinha, dentro de casa?

Até hoje não sei como consegui, mas enxuguei as lágrimas, peguei minhas malas, chequei que meu calmante estava dentro da bolsa de mão, e fui.

***

Subindo a Lion's Head - a vista é impagável!
Subindo a Lion’s Head – a vista é impagável!

A forma como escolhi Cape Town como destino pras minhas férias foi totalmente intuitiva. À princípio eu tinha pensado no Canadá, sei lá eu o porquê. Acho que é apenas um daqueles destinos que vêm primeiro na sua cabeça quando está pensando em dar um up no inglês e passar um tempo curtindo um lugar diferente. Tinha a vantagem que o dólar canadense era um pouco mais barato que o dólar americano, então por alguns dias fiquei com essa ideia fixa. Se tivesse persistido na ideia de ir pro Canadá, tenho pra mim que, provavelmente, teria ido pra Vancouver…

De repente, não mais que de repente, tive um clique. Uma ideia que surgiu absolutamente do nada:

POR QUE NÃO ÁFRICA DO SUL?

Eu trabalhava criando roteiros pra lá; minha chefe tinha voltado há poucos meses de uma viagem à Cape Town e disse que foi o pôr-do-sol mais fantástico que ela tinha presenciado na vida; eu tinha participado de um treinamento onde o cara contou com detalhes sobre o mergulho com o tubarão branco e fiquei louca de vontade de fazer e, pra coroar: a moeda sul-africana (o Rand) estava valendo 4 vezes menos que o Real!

Visão privilegiada do pôr-do-sol mais lindo do planeta: do alto da Lion's Head
Visão privilegiada do pôr-do-sol mais lindo do planeta: do alto da Lion’s Head
Quando me dei conta que em novembro o Canadá estaria se preparando pra entrar no inverno, enquanto a África do Sul estaria já vivendo os dias que antecedem o verão, minha decisão estava tomada: CAPE TOWN, HERE WE GO!!!

Quando comprei as passagens, o que não faltou foi quem me dissesse que eu era louca, que era perigoso, que não tinha nada pra fazer lá além de ver bicho e que eu passaria um mês inteiro no meio do mato. A minha amiga que morava na Nova Zelândia chegou até a me mandar uma reportagem que dizia que Cape Town estava entre as 10 cidades mais perigosas do mundo, e que eu corria o risco de ser estuprada. Eu simplesmente não ligava pra nada do que as pessoas diziam: eu trabalhava com isso, mandava turistas pra lá o ano inteiro, e sabia que a maior parte do que me falavam era fruto de uma visão distorcida baseada em décadas de preconceito e total falta de informação.

Sei lá eu o porquê, mas algo dentro de mim dizia que aquele era o destino certo, o meu destino.

***

Cheguei em Cape Town ainda no sábado, mas já era tarde da noite. Eu ficaria hospedada durante 4 semanas na residência estudantil que ficava no mesmo prédio da escola, onde também tinha um pub. No dia que cheguei estava rolando uma baita festa de Halloween: todo mundo fantasiado, um super clima legal! Eu dei apenas uma espiada de longe, sem nem entrar, e segui direto pro meu quarto.

Curtindo um dia lindo em Cape Point
Curtindo um dia lindo em Cape Point

Desfiz as malas, tomei um banho, tomei meu comprimido e me joguei na cama.

Eu estava sozinha, pois minha companhia de quarto ainda não tinha chegado. Tinha visto num painel na recepção que ela chegaria apenas no dia seguinte, e não fazia ideia da nacionalidade dela. Será que ela era gente boa? Seria que nos daríamos bem?

A verdade é que eu não sabia se eu deveria mesmo estar ali, naquela cidade que nunca havia estado antes, sozinha e sem ter a menor ideia do que o futuro me reservava. Naquele momento, eu sentia apenas que seria muito difícil sobreviver àquelas quatro semanas…

“É, isso é bem verdade. Mas ter ficado em São Paulo durante esse mês inteirinho não teria tornado essa tarefa nem um pouquinho mais fácil, né?” era o que eu repetia pra mim mesma, o tempo inteiro.

Não estava sendo fácil, mas minha intuição dizia que eu tinha tomado a decisão certa.

Clifton Beach - Cape Town

Acordei no dia seguinte determinada a explorar os arredores. As aulas começavam apenas na segunda-feira, então meu primeiro dia na cidade seria um dia inteirinho livre! Coloquei minha mochila nas costas e fui caminhar: passeei na praia, descobri onde ficava o mercado, dei uma olhada nos restaurantes mais próximos, enfim, fiz aquele reconhecimento geral de área.

Sabine e eu jantando no restaurante italiano, no dia que nos conhecemos
Sabine e eu jantando no restaurante italiano, no dia que nos conhecemos

Quando voltei pro quarto, minha roomate tinha acabado de chegar: Sabine, uma alemã que tinha a minha idade, e logo pediu pra que eu mostrasse pra ela o que tinha descoberto sozinha pelo bairro. Passamos a tarde toda batendo perna e, naquela noite, fomos jantar juntas no restaurante italiano ao lado da escola. Conversamos como se nos conhecêssemos desde sempre, e foi mesmo um dia muito divertido!

Ainda assim, quando fui dormir, abri meu computador e, pela segunda vez, me pus a escrever no que eu tinha definido que seria um diário de férias: eu estava tão triste que sentia que precisava, de alguma forma, colocar pra fora o que eu estava sentindo de verdade. Decidi que aquele “diário eletrônico” seria minha companhia durante todo o meu tempo em Cape Town, e aquilo de certa forma me confortava.

Terminei de escrever, tomei mais uma vez o meu calmante e, eventualmente, dormi.

***

Pinguins em Boulders Beach
Pinguins em Boulders Beach

Nas semanas que se seguiram eu estudei, fui à praia, visitei vinícolas, museus, passei tardes e mais tardes em Camps Bay e Clifton Beach (sim, o pôr-do-sol mais fantástico do mundo!!!), fiz hiking montanha acima, me perdi durante a noite em Signal Hill voltando de uma caminhada na Lion’s Head (onde vivi as horas mais assustadoras da minha vida), fui incontáveis vezes ao V&A Waterfront, fui ao estádio assistir um jogo de futebol da seleção sul-africana (eles tinham sediado a copa do mundo apenas alguns meses antes), passei uma tarde no Cabo da Boa Esperança, vi uma quantidade infinita de pinguins em Boulders Beach, me maravilhei com tamanha beleza em Cape Point, jantei num restaurante indiano com a turma mais improvável e me diverti horrores, experimentei carne de crocodilo, de avestruz e de vários tipos de ‘bambis’, tomei shots de Springbok, dancei ao som de música típica africana, participei de jantares, ou melhor, verdadeiros

Cage diving com os tubarões brancos - OFF MY BUCKET LIST!!!
Cage diving com os tubarões brancos – OFF MY BUCKET LIST!!!

banquetes na casa de Mohammed’s, cruzei o país de ponta a ponta em uma viagem de carro com meus novos amigos, visitei cavernas, subi de bondinho na Table Mountain e mergulhei com o tubarão branco (Sim! Assustador e emocionante!!! Off my bucket list!!!).

Conheci um monte de gente e, pra falar a verdade, logo após a primeira aula já tinha até a minha própria turminha. Descobri que os sul-coreanos são possivelmente a galera mais gente boa do mundo, e que alemães não são necessariamente pessoas frias e fechadas. Fiz do Abdul um grande amigo – um árabe que jamais esquecerei e trago pra sempre em meu

Acompanhando as amigas na aula de surf - Abdul e eu estávamos com muito frio no dia, não deu pra encarar a água... rsrs
Acompanhando as amigas na aula de surf – Abdul e eu estávamos com muito frio no dia, não deu pra encarar a água… rsrs

coração. A Sabine, minha roommie, se tornou uma irmã depois dos primeiros minutos de conversa: ficávamos batendo papo e gargalhando durante a noite, mesmo depois de apagar a luz, como se fôssemos amigas de infância. Fui pra praia com amigas italianas que queriam aprender a surfar. Fiz uma viagem na companhia de amigos brasileiros, colombianos, e um namoradinho suíço. Paguei pau pro gatinho italiano da escola. Ensinei os gringos a dançarem a dança da mãozinha e tudo que foi música do Tchakabum. Curti baladas com gente de toda parte do mundo. Virei amiga inseparável do Carlos e da Juliana, brasileiros que foram a companhia perfeita pra toda essa aventura!

Ju, eu e Carlos à caminho do estádio de futebol pra torcer pra África do Sul
Ju, eu e Carlos à caminho do estádio de futebol pra torcer pra África do Sul

Num dos meus últimos dias em Cape Town, eu estava fuçando na minha bolsa de mão (aquela que nunca mais usei durante a viagem) e encontrei algo que eu nem lembrava mais que existia: a cartela com meus calmantes. Naquele minuto me dei conta que meu computador nunca mais tinha sido nem aberto, quem dirá então o tal “diário eletrônico” ter sido escrito?

***

Nossa turminha estava sempre cantando uma música que, pra todos nós, significava o que estávamos vivendo durante aqueles dias: “I haaaad the time of my liiiife, and I never felt this way befooooooooreee…………..”

Ah, Cape Town… Até hoje, com certeza, ainda é o meu lugar no mundo. Serei eternamente grata Heart

Love,

Carol

Carol Sales

Paulista que antes residia em Auckland (agora em período de transição), gosta de sol e mar, de chuva e aconchego, de frio e cobertor. Hoje. Talvez amanhã não goste mais.
Acredita que nada acontece por acaso e que a vida dá seu jeito, e vive numa eterna batalha entre ir pra academia, ler, escrever ou ficar de bobeira pesquisando sonhos na internet - sonhos esses que 99.9% das vezes tem a ver com definir o próximo destino.