61° DIA: RELATOS DE UMA INQUIETA – “E EU FUI PARAR NA NOVA ZELÂNDIA”

Auckland - Crise dos 30

Não é fácil lidar com uma mudança forçada de planos. De uma hora pra outra, eu deixei de ser alguém que tinha três opções nas mãos e passei a ser, literalmente da noite pro dia, alguém que não tinha nenhuma. Eu simplesmente não conseguia acreditar que aquilo estava acontecendo comigo e perdi um tempo precioso discutindo com Deus e todas as forças do universo: eu não aceitava essa mudança de planos repentina, eu não entendia o porquê e me sentia no direito de exigir uma resposta.

Resposta essa que veio, mas não na hora que eu queria. Se eu ao menos soubesse que, hoje, quase 4 anos e meio depois de ter vivido tudo isso, eu estaria agradecendo a Deus todos os dias pelo fato dos meus planos terem dado errado…

Tinha passado umas três semanas desde que eu recebi o e-mail bombástico, e eu ainda não tinha decidido o que faria. Um dia eu estava em casa checando meus e-mails e vi uma mensagem daquelas de propaganda, que meu melhor amigo tinha me encaminhado. Ele ainda não sabia que tinha mesmo dado tudo errado com meus planos de ir pra Austrália, e por isso me mandou uma promoção de passagens aéreas para Sydney por USD999. Quando vi o e-mail só pensei em, como diria minha avó, me enforcar num pé de couve. Que grandissíssima merda estava me acontecendo! Ainda mais agora, com essa super promoção de passagens aéreas pra Austrália, e eu não posso ir!

Durante a Copa do Mundo de Rugby em 2011
Durante a Copa do Mundo de Rugby em 2011

Fiquei encucada com aquele email e não sei por que, mas não tive coragem de deletá-lo. Quando finalmente parei de espernear e de me sentir a mais azarada do universo, olhei pra tela do computador novamente e percebi que, naquele mesmo e-mail, tinha também uma promoção de passagens para a Nova Zelândia, com a mesma cia aérea.

“Nova Zelândia! Por que não? Minha amiga mora lá e não precisa de visto de turista por até três meses, o que significa que não teria burocracia nenhuma! Posso embarcar amanhã se eu quiser!”

Naquele mesmo dia, mandei uma mensagem pra minha amiga e a resposta que obtive foi: “Vem! Vem! Vem!”. No dia seguinte estava com a passagem comprada para embarcar dali 30 dias. Aproveitaria a conexão para passar quatro dias em Buenos Aires, cidade que tinha visitado apenas uma vez, e de lá seguiria pra Auckland.

Ninguém estava entendendo mais nada.

***

Foi assim que eu vim parar na Nova Zelândia.

Depois de absolutamente tudo o que eu planejei ter dado errado, vim pra cá com duas malas lotadas e sem a menor ideia do que iria acontecer. Meus planos nunca foram fazer minha vida aqui (por mais que a grande maioria da minha família ainda não acredite). Eu embarquei com a passagem de volta marcada para exatamente 3 meses depois e, embora eu já pensasse na possibilidade de esticar por mais algum tempo (no máximo um ano!), eu não fazia ideia se o dinheiro que eu tinha seria o suficiente pra me bancar e nem como funcionava a questão de vistos e afins. De qualquer forma, fixar residência aqui não fez, em nenhum momento, parte dos meus planos.

Eu cheguei na Nova Zelândia no dia 03 de maio de 2011 e a ideia era dormir no sofá-cama da minha amiga durante os primeiros meses, ou até quando eu resolvesse o que faria. Durante dois meses, vivi a vida que nunca antes tinha tido a oportunidade de viver: tinha o dinheiro da minha recisão na conta e nenhuma obrigação ou rotina. Eu ficava sozinha durante a maior parte do dia e, à noite, saia para acompanhar as gigs (shows ou apresentações em barzinhos) dos amigos músicos da Fê. A vida era pura festa! Contar as coisas que aconteceram naqueles primeiros meses, por si só, daria um livro!

Fê, Henrique e eu
Fê, Henrique e eu

No meio dessa turma de músicos havia um brasileiro (sim, você já sabe, claro que é o Henrique!), com quem fiz amizade logo nos primeiros dias. Era um cara bacana, alto-astral, companhia das mais divertidas, e aos poucos fomos descobrindo que tínhamos muita coisa em comum. Por ser músico e trabalhar à noite, ele tinha a maioria das tardes livres, então vira e mexe me chamava pra tomar um café. Éramos apenas amigos, eu juro! Mas aí as coisas foram se desenrolando, a amizade acabou dando pinta de que pudesse, quem sabe, se tornar mais que isso e, propositadamente omitindo todos os detalhes (principalmente os sórdidos), no dia 02 de setembro de 2011 era dada a largada: essa foi a data do nosso primeiro beijo, e desde então não nos desgrudamos mais.

Ahhhh, o amor!!!!
Ahhhh, o amor!!!!

E eu não queria. Eu não achava que seria bom pra mim já mergulhar de cabeça num outro relacionamento sério. Eu estava separada há pouco mais de um ano, sabia que estava ainda “cheia de barulho”, como o Henrique e a Fê dizem, e não achava justo incluí-lo nessa bagunça toda de sentimentos. Mas quem disse que a gente sabe das coisas, né? Não adiantou eu resistir, não adiantou eu achar que não era a hora. Lá se vão quase quatro anos e estamos aqui, firme e forte, vivendo o que é, sem dúvida nenhuma, o relacionamento mais intenso das nossas vidas (tanto no amor, quantos nas brigas).

Eu, que lá atrás, chorava e esperneava tentando entender o porquê daquilo tudo estar acontecendo comigo, precisei vir parar literalmente no fim do mundo pra entender, de uma vez por todas, que NADA ACONTECE POR ACASO.

Hoje eu acredito com toda a minha força que todos os meus planos tiveram que dar errado para que eu pudesse, num ato de desespero, vir parar em Auckland e aqui encontrar o grande amor da minha vida.

Pra quem curte simbolismos, nosso primeiro beijo aconteceu exatamente um ano depois da minha cirurgia. É ou não é o sinal de um recomeço, de uma nova vida?

Love,

Carol

 

Carol Sales

Paulista que antes residia em Auckland (agora em período de transição), gosta de sol e mar, de chuva e aconchego, de frio e cobertor. Hoje. Talvez amanhã não goste mais.
Acredita que nada acontece por acaso e que a vida dá seu jeito, e vive numa eterna batalha entre ir pra academia, ler, escrever ou ficar de bobeira pesquisando sonhos na internet - sonhos esses que 99.9% das vezes tem a ver com definir o próximo destino.