64° DIA: POR QUE SEMANA PASSADA MINHA VIDA VIROU DE CABEÇA PRA BAIXO?

Mudanças inesperadas - Crise dos 30

A vida é mesmo uma caixinha de surpresas…

Quem diria que, de uma hora pra outra, não sobraria nenhuma das poucas certezas que eu ainda tinha? Não é mesmo possível prever nada….

Como o objetivo aqui do Desafio dos 222 Dias é contar o dia-a-dia e a realidade de uma pessoa comum, assim como você, que resolveu parar tudo e se dar a chance de (re)criar sua carreira e seu estilo de vida (caso você esteja em dúvida, essa pessoa sou eu!), não existe nenhum motivo para eu omitir ou simplesmente não querer falar sobre o que tem acontecido na minha vida nessa última semana.

Preparados? Então vamos lá!

Exatamente oito dias atrás, o Henrique recebeu uma notícia que abalou absolutamente todos os nossos planos e a pequena “estabilidade” na qual nos apegávamos para seguir com nossas vidas, especialmente nesse momento tão turbulento de transição. Ele foi informado que uma de suas gigs (apresentações que ele faz com sua banda em um bar espanhol todos os domingos) seria cancelada dali três dias.

É isso. Esse é nosso drama.

Drama - Crise dos 30

Parece pouco, né?

Se tivesse acontecido alguns meses atrás já teria sido um baque, principalmente levando em conta que ele já tinha esse trabalho fixo há quase 3 anos (o que é considerado quase um milagre no mundo da música), mas o fato de ter acontecido exatamente agora, quando estamos vivendo com o dinheiro contado semana após semanas, significou, entre outras coisas, que teremos que sair da casinha que tanto amamos pois, com a grana que vai passar a entrar em casa, não conseguiremos mais bancar o aluguel.

Crise dos 30 - ChoroNão exagero quando digo que, em questão de 5 minutos (tempo que deve ter levado para que ele recebesse a notícia), absolutamente todos os nossos planos foram colocados em cheque. Todas as nossas decisões recentes (inclusive minha decisão de ter pedido demissão do meu emprego) foram tomadas considerando que nos sustentaríamos com o dinheiro das quatro gigs semanais fixas que o Henrique fazia, então a notícia não foi recebida apenas num tom de “Ah, perdeu uma gig, acontece!”, mas sim de “PQP!!! Se fudemonos!!!”

E não fui apenas eu que tomei decisões importantes nos últimos meses. Mês passado, o Henrique tomou a difícil decisão de trancar a faculdade por seis meses (algo com o qual ele sempre sonhou e batalhou muito tempo para conseguir realizar) para poder se dedicar à finalização de seu primeiro disco solo, o que consome muito tempo, dinheiro e energia. Ele está correndo contra o relógio pra fazer esse trabalho acontecer, já que vários dos nossos planos para o próximo ano incluem os projetos que queremos executar a partir do lançamento desse disco. Pra ajudar, eu estou com viagem marcada pra daqui um mês e meio e não volto pra Nova Zelândia até o ano que vem, então realisticamente não tenho muitas chances de arranjar nem mesmo um emprego qualquer para ajudar a pagar as contas.

Que doideira essa vida! Um dia, você acorda planejando sua agenda, pensando sobre o que vai escrever, o que vai cozinhar no almoço e por quantas horas vai estudar, e nesse mesmo dia vai dormir tentando encontrar um lugar pra morar…

Na quinta-feira passada, quando o Henrique me ligou, eu sabia que ele estava apavorado. A primeira sensação é mesmo a de desespero, e o primeiro pensamento inevitavelmente é: “Meu Deus! O que é que nós vamos fazer agora?”. Naquele momento, eu tinha duas opções: entrar em desespero junto com ele e começar a amaldiçoar o tal do gerentão babaca que decidiu abolir a gig de repente, ou fazer dessa a minha chance de verdadeiramente colocar em prática tudo o que tenho dito e aprendido nesses últimos meses.

Por incrível que pareça, eu não precisei tomar nenhuma decisão: ela se tomou sozinha. Quando percebi, eu estava ao telefone há 20 minutos conversando com ele sobre todas as coisas positivas que poderiam vir disso tudo, e dizendo que talvez devêssemos encarar todas essas adversidades como um teste: esse era o jeito da vida (ou, de acordo com o que eu acredito, de Deus) nos fazer refletir se o estilo de vida que dizemos que queremos é realmente o que estamos dispostos a ter.

Torre Eiffel - Crise dos 30Nós queremos mesmo morar uma parte do ano em cada lugar? Se for pra ser assim, teremos que desapegar da nossa casinha alugada que tanto amamos, porque a realidade, nesse momento, é que não vamos conseguir bancar duas casas em lugares diferentes o ano inteiro.Cristo Redentor - Crise dos 30

Nós queremos mesmo ter uma vida onde nós dois seremos autônomos? Porque é realmente fantástico ter alguém do seu lado disposto a te acompanhar e a viver exatamente o mesmo estilo de vida que você, mas estamos dispostos a viver na incerteza de não ter salário? De nenhum dos dois ter a segurança de um dinheirinho certo caindo na conta no final do mês?

É claro que estou chateada e é claro que eu não queria que nada disso estivesse acontecendo. Não nego que estou triste, aliás, recentemente aprendi que é imprescindível nos permitir sentir a tristeza quando ela dá as caras: ontem mesmo tive um breakdown e comecei a chorar descontroladamente, sentindo todo o peso do mundo em minhas costas. No entanto, ter recebido aquela ligação me deu, em cada um dos oito dias que se seguiram, a oportunidade de tomar uma decisão importante todos os dias: posso me desesperar e me revoltar contra tudo o que está acontecendo, ou posso optar por receber todas essas mudanças de braços abertos, e ficar atenta para identificar as oportunidades que ela trouxer (sim, pois isso eu já aprendi: mudanças não planejadas sempre trazem com elas oportunidades escondidas – ou nem tão escondidas assim…).

Eu acredito que, como dizia Viktor Frankl (sobrevivente do holocausto e autor de Man’s Search For Meaning, livro que estou lendo atualmente e SUPER INDICO!):

“Everything can be taken from a man but one thing: the last of the human freedoms—to choose one’s attitude in any given set of circumstances, to choose one’s own way.”

(Em tradução livre: Um homem pode perder tudo, menos uma coisa: a última das liberdades humanas – escolher que atitude tomar em qualquer circunstância, escolher o seu próprio caminho)

Não é fácil lidar com as rasteiras que a vida nos dá. Não vai ser uma tarefa fácil viver com a grana ainda mais contada do que já está e nem ter que sair correndo da nossa casa pra de repente nos acomodarmos em quartos na casa de amigos (que graças à Deus existem e quando pedimos a mão, nos estenderam muito mais que isso e nos fizeram perceber o quanto estamos rodeados de pessoas generosas e incrivelmente especiais). No entanto, essa é a chance que a vida está me dando de viver de acordo com o que acredito e, no final das contas, não era exatamente isso o que eu queria quando resolvi me propor esse desafio?

Love,

Carol

Carol Sales

Paulista que antes residia em Auckland (agora em período de transição), gosta de sol e mar, de chuva e aconchego, de frio e cobertor. Hoje. Talvez amanhã não goste mais.
Acredita que nada acontece por acaso e que a vida dá seu jeito, e vive numa eterna batalha entre ir pra academia, ler, escrever ou ficar de bobeira pesquisando sonhos na internet - sonhos esses que 99.9% das vezes tem a ver com definir o próximo destino.