65° DIA: RELATOS DE UMA INQUIETA – “E EU LEVEI SÃO PAULO PRO OUTRO LADO DO OCEANO”

Stress - Crise dos 30
As primeiras semanas no emprego novo foram, claro, de adaptação, mas não foi nada muito complicado pois a verdade é que eu já me sentia em casa: eu dominava o assunto, tinha experiência de quase dez anos em Turismo e estava de certa forma aliviada por estar de volta em um ambiente onde eu me sentia confortável, desenvolvendo atividades que estavam certamente dentro da minha ‘zona de conforto’ (exceto na hora de atender o telefone em inglês, o que sempre foi um dos meus maiores bloqueios, desde os tempos da Disney).

Esse foi um período de muitas mudanças e, ao mesmo tempo, também bastante solitário. Exatamente cinco dias depois de eu ter começado no trabalho novo, o Henrique foi pra Europa fazer uma tour de um mês e meio com a banda da qual ele fazia parte na época, e minha flatmate tinha saído do apartamento antes mesmo da gente voltar do Brasil. Morando sozinha, claro que não fiz outra coisa a não ser enfiar a cara no trabalho e me dedicar a aprender tudo o que eu precisava aprender o quanto antes, para assim poder desenvolver minha função com excelência.

Existiam alguns boatos na empresa de que o então sócio/gerente estaria indo embora pro Brasil em breve. Ninguém sabia exatamente quando nem o porquê, mas sabíamos que existia a possibilidade disso acontecer. Um belo dia, no final do expediente, ele me chamou pra uma conversa e largou à queima roupa: “Não é segredo pra ninguém que estou me mudando de volta pro Brasil e eu preciso de alguém para assumir a empresa no meu lugar. Sei que você está aqui há apenas um mês e meio, mas já percebi que você tem experiência, sabe o que está fazendo e eu gosto do seu trabalho. Quero saber se você aceita assumir o cargo de gerente geral do escritório assim que eu sair”.

Eu quase caí da cadeira.

Preocupação- Crise dos 30Claro que fiquei lisonjeada com a proposta, mas eu tinha muitas dúvidas. A mais gritante de todas era se eu teria capacidade de assumir um cargo desses com um inglês que eu não achava que seria bom o suficiente (após quatro anos morando aqui e já tendo vivido tanta coisa, por incrível que pareça, esse ainda é um assunto que me aflige. Estou trabalhando essa questão nas sessões de coaching que estou fazendo atualmente, buscando identificar da onde vem esse bloqueio ou essa crença de que, mesmo contra a opinião de todos os que me cercam, meu inglês não está no nível que deveria…), além, é claro, de ter muito receio quanto à aceitação do restante da equipe: além de eu ser uma das mais novas com relação à idade, era também a funcionária mais nova, a que tinha entrado por último na empresa. Eu já comecei a prever problemas nessa área antes mesmo de dizer sim…

Fui pra casa e ponderei a proposta por alguns dias. A verdade é que mesmo eu estando morrendo de medo, dizer ‘não’ não era uma opção razoável. Na lista de prós e contras, o único item na parte dos contras era meu medo, enquanto os prós eram muitos: meu salário iria aumentar, eu teria a oportunidade de testar minhas habilidades como gerente geral de um business e líder de equipe, eu teria que dar a cara à tapa e botar meu inglês pra funcionar, independentemente de achar que ele era bom o suficiente ou não e, pra completar, o cargo de gerente me possibilitaria dar entrada num visto de trabalho por mais dois anos.

E foi aí, e somente aí, que minha vida começou a efetivamente se desenhar do lado de cá do globo.Gerente - Crise dos 30

Eu assumi o cargo de gerente geral da operadora no dia 1° de outubro de 2012, três meses depois de ter começado a trabalhar lá. Foi uma segunda-feira como outra qualquer, exceto que, naquele dia, eu cheguei no escritório às 9h como consultora de viagens e saí às 18h como gerente geral.

E só eu sei o que eu passei… Digo sem medo de estar exagerando ou de soar melodramática, que esse foi, sem sombra de dúvidas, o maior desafio que encarei em toda a minha vida. Até hoje não sei de onde tirei forças para sobreviver principalmente aos seis meses que se seguiram. Tudo o que tinha para acontecer aconteceu, desde ter que lidar com um “guia” que durante um tour privativo com uma família cheia da grana em Sydney tirava selfies com a Opera House ao fundo como se ele fosse o turista, até com uma noiva que estava aos berros presa num hotel em Fiji durante um ciclone, que nesse momento tinha arruinado sua cerimônia de casamento. Eu não sei dizer quantas madrugadas fui acordada pelo Zeca (apelido carinhoso do maldito celular de emergência do qual eu não podia me desgrudar nenhum minuto do dia, incluindo sábados, domingos e feriados), que não hesitava em tocar enquanto eu estava tomando banho, curtindo um final de semana de sol na praia, recebendo amigos em casa ou fazendo sexo (sim, e isso infelizmente não aconteceu apenas uma vez).

Crise dos 30 - StressProblemas pipocavam de todos os lados. Coisas que eu não fazia ideia de como resolver, mas que eu não tinha absolutamente ninguém pra quem perguntar. A minha palavra era a palavra final e, qualquer merda que desse, seria eu mesma que teria que resolver. Nesse período, problemas tecnológicos também passaram a acontecer: desde a internet cair de uma hora pra outra e ficarmos um dia inteiro sem ter condições de trabalhar, até o servidor que era super velho começar a dar sinais de que pifaria a qualquer momento. Coisas que eu não saberia como resolver nem mesmo em português, quanto mais em inglês!!!

Mas acho que posso dizer que, em determinado momento, essa fase passou. Chegou num ponto em que eu já tinha apagado tanto incêndio, que absolutamente nada mais tinha o poder de me abalar. De alguma forma, me sentia mais preparada para o papel que eu tinha que representar: eu percebi que eu tinha sido capaz de passar por tudo isso e ainda assim fazer um bom trabalho, e com isso era como se eu tivesse recebido uma dose extra de autoconfiança que me permitiu seguir em frente sem desmoronar. O trabalho não ficou mais fácil, tampouco os problemas pararam de acontecer, mas eu passei a confiar mais nas minhas próprias decisões e a me sentir capaz de lidar com todas as adversidades.

Além disso, tenho que admitir que essa loucura toda também teve suas compensações…

Australia - Crise dos 30Fiji - Crise dos 30Grande Barreira de Corais - Crise dos 30

Ainda no primeiro semestre de 2013, participei dos maiores eventos do Turismo em três países (Austrália, Fiji e Nova Zelândia), onde representei a empresa durante dias e mais dias de reuniões e encontros com diversos integrantes da indústria, o que me proporcionou, além de experiências profissionais fantásticas, receber uma dose extra de autoconfiança e de um sentimento de “YES, I CAN!”. Se alguém tivesse me dito um ano antes que, naquele momento, eu estaria à frente de uma equipe e realizando tantas coisas na minha vida profissional, eu provavelmente teria rido na cara da pessoa e dito que eu, obviamente, não estaria preparada pra aquilo. Tudo o que eu queria era um emprego num escritório (de preferência em Turismo) que me tirasse da vida de garçonete que eu já não curtia mais.

Mas quem poderia imaginar o que a vida me reservava?

Workaholic - Crise dos 30Eu sou o tipo de pessoa que não consegue ser uma profissional pela metade. Se me propõem um desafio – e eu aceito – eu vou até o fim. Eu era a responsável por aquela empresa e o peso do cargo fez com que eu colocasse essa responsabilidade acima de todo o resto, inclusive da minha vida pessoal. Eram tantas coisas que aconteciam o tempo todo, tantas ligações fora de hora no maldito Zeca, que não demorou muito pra que minha vida se resumisse àquilo: eu dormia e acordava pensando em trabalho e não tinha absolutamente mais nenhum assunto. O trabalho passou a, mais uma vez, consumir toda a minha vida.

Eu, que tinha vindo pra Nova Zelândia em busca de novos ares, consegui recriar exatamente a mesma vida que eu tinha em São Paulo (stress, falta de tempo, viver pra trabalhar, etc) numa cidade que marca presença em toda e qualquer lista de lugares com melhor qualidade de vida do mundo! Eu tinha, sabe Deus como, conseguido a proeza de trazer tudo o que eu não gostava da minha vida antiga pra dentro da minha vida nova, mesmo morando em um lugar onde tudo o que eu via ao redor eram pessoas que viviam a glória de uma vida muito mais equilibrada: elas trabalhavam, sim, mas não era raro uma amiga me contar que às sextas-feiras todo mundo saia mais cedo do escritório, ou que à tarde era servido vinho e cerveja durante o expediente.

Tudo ao meu redor exalava equilíbrio e qualidade de vida, ainda assim eu estava ali, vivendo na minha São Paulo particular…

Love,

Carol

 

 

Carol Sales

Paulista residente em Auckland, gosta de sol e mar, de chuva e aconchego, de frio e cobertor. Hoje. Talvez amanhã não goste mais.
Acredita que nada acontece por acaso e que a vida dá seu jeito (contanto que a morte não seja o assunto da rodinha) e vive numa eterna batalha entre ir pra academia, ler, escrever ou ficar de bobeira pesquisando sonhos na internet - sonhos esses que 99.9% das vezes tem a ver com definir o próximo destino.