72° DIA: POR QUE MINHA VIDA VIROU DE CABEÇA PRA BAIXO? – PARTE II

Medo - Crise dos 30
Eu constantemente me pego questionando se devo mesmo contar abertamente os meus problemas e as situações desafiadoras que a vida me traz. Minha tendência é imediatamente tentar ponderar, esperar e, principalmente, encontrar solução para tudo sozinha, mas sei que essa nem sempre é a resposta.

No dia 19 de junho, quando publiquei o primeiro post do Desafio dos 222 Dias, mal sabia eu as histórias que eu iria contar. Na minha cabeça, eu contaria uma história mais linear, repleta de conquistas e desafios com relação à rotina, criação, produtividade, novos hábitos e outros assuntos ligados ao meu desenvolvimento pessoal. Acontece que a vida não para, e as histórias que nesse momento eu tenho para contar não são nem de longe as que eu gostaria de estar contando.

Eu sinto no meu coração que eu preciso registrar aqui o que tem se passado, mas meu maior receio é que eu não consiga dar a entonação certa ao meu relato e, com isso, o Crise dos 30 passe a ter um tom de mimimi. Gosto de acreditar que mimimi não faz parte da minha personalidade (espero que eu não esteja iludida), e que o fato de compartilhar os problemas que eu e o Henrique temos enfrentado essas últimas semanas seja, na verdade, a única forma de eu me manter fiel ao meu propósito aqui no blog: relatar, em tempo real, a jornada de alguém comum que decidiu ‘chutar o balde’ e (re)criar sua carreira e seu estilo de vida, com mais propósito e de acordo com seus valores mais profundos.

Não estou aqui pra defender o “Faça o que você ama” a todo custo, nem pra te dizer que pra ser feliz você precisa se desvencilhar do tal “sistema”, largar seu emprego chato das 9h às 6h, botar uma mochila nas costas e ser feliz pra sempre viajando. Pelo contrário! Estou aqui pra te dizer que o caminho é diferente pra cada um, e que independentemente da estrada que você escolher, existe apenas uma certeza: haverá obstáculos. Eu não estava preparada para os meus, mas eles chegaram, e essa é uma parte da minha história que eu não quero esconder.

Rotina - Crise dos 30

Numa quinta-feira eu acordei, lavei roupa, preparei o almoço, estudei, escrevi. Era um dia normal, como outro qualquer. Naquela noite eu recebi uma notícia e, exatamente 14 dias depois, eu tinha minhas roupas todas guardadas em malas (uma pronta pra fazer uma viagem de emergência e outra para deixar aqui), todos os meus pertences em caixas de papelão na garagem de uma pessoa que eu mal conhecia, tinha entregado minha casa, estava dormindo num quarto alugado, sem ter a menor ideia se eu precisaria embarcar pro Brasil no dia seguinte ou não, sem saber se eu ainda iria pros Estados Unidos ou se perderia não apenas o dinheiro da passagem, mas também o do curso que comprei quatro meses atrás, e sem saber se o dinheiro que tinha na conta seria suficiente pra cobrir os gastos que estavam por vir – tanto com essa viagem de emergência, quanto com os projetos pra carreira do Henrique que ainda queremos concluir.

Como contei aqui, foi há duas semanas, no dia 13 de agosto, que o Henrique recebeu a notícia que haviam cancelado a gig que há três anos ele fazia todos os domingos. O dinheiro que ele recebia com esse trabalho era parte essencial do nosso orçamento: foi contando com o trabalho do Henrique que eu, há quase quatro meses atrás, pedi demissão do meu emprego e me permiti esse tempo para me reconectar comigo mesma e redesenhar minha carreira e minha vida (ou melhor, nossa vida, pois todas as decisões envolvem essencialmente a vida e a carreira dele também). Você pode imaginar então que uma surpresa dessas tenha tido um impacto devastador em nosso orçamento, o que significou que tivemos que cancelar o contrato do aluguel da nossa casinha que tanto amamos e, meio que na correria, nos mudar de lá para a casa de um amigo de uma amiga, que nos alugou um quarto e tem sido nada mais, nada menos, que um anjo em nossas vidas. Na correria da perda do emprego, da mudança de casa e dos desafios financeiros que uma renda que despencou sem nenhum aviso prévio traz, recebemos uma notícia que nos tirou o chão: na segunda-feira, soubemos que a saúde do pai do Henrique está comprometida, e ele precisaria ser levado ao hospital para tratamento de uma doença que, embora tudo indique que seja tratável, é séria e preocupante.

Quando soube da notícia, tive a nítida sensação de ouvir uma voz dizendo: “Vocês achavam que tinham um problema? Hahaha Agora vocês vão ver o que é problema…”

Começamos a viver o pior pesadelo de qualquer pessoa que mora no exterior, longe de sua família: receber a notícia alarmante sobre a saúde de alguém que você ama e não ter absolutamente nada que você possa fazer.

Esses últimos dez meses têm sido particularmente difíceis pra mim: foram tantas perdas na minha família que eu sinto que nem sei mais como lidar com elas. Foi-se o tio Wilmar, foi-se o tio Nilo, foi-se o Sr Antônio, foi-se a minha avó Adélia, e em todas essas situações eu estava aqui, do outro lado do mundo e sem a menor possibilidade de pegar um avião às pressas para estar ao lado da minha família (morar na Nova Zelândia não é como morar na Europa ou Estados Unidos, onde as opções de voo são infinitas e em 12 horas ou menos você chega ao seu destino. Daqui, existe apenas um voo por dia com destino à América do Sul, e no caso da minha avó por exemplo, por já ter perdido o voo do dia, eu levaria cerca de 60 horas até chegar na cidade dela, ou seja: sem chance de chegar pro velório, nem mesmo pro enterro, mesmo se eu tivesse toda a grana do mundo pra bancar a passagem de última hora).

Crise dos 30 - CoraçãoDessa vez, estou acompanhando de perto a angústia e o sofrimento do amor da minha vida, que passa dia após dia apavorado e grudado no Facebook, esperando ansiosamente por notícias do pai. Nessas horas, o primeiro impulso é fazer o que for necessário para colocar a pessoa num avião, independentemente de qualquer coisa. Mas quando você depende de uma única companhia aérea que em algumas datas de setembro chega a estar cobrando NZD10,000.00 por uma passagem ida e volta para o Brasil (o equivalente a R$22.400,00) você começa a repensar todas as suas decisões, e passa a se perguntar se realmente vale a pena continuar vivendo aqui.

É uma merda num momento desses ter que ser prudente e se preocupar com dinheiro. Quem me dera pudesse simplesmente correr pro aeroporto e pegar o primeiro avião, simplesmente jogando um cartão de crédito platinum no balcão do check in. Mas essa não é a minha realidade, então, me resta apenas respirar fundo e dar toda a força, o apoio e o amor que o maior companheiro que já tive na vida merece receber.

Estamos em sinal de alerta: já são cinco noites sem dormir direito, muitas e muitas horas monitorando preços de passagens aéreas em tudo o que é site de viagem, mais muitas horas incomodando os amigos que nos venderam as passagens promocionais que compramos em abril, quando nossos planos eram irmos para o Brasil via Califórnia, onde eu faria um stop em outubro para participar do evento ao vivo do Brendon Burchard em Santa Clara, e onde passaríamos uma semana de férias em Janeiro durante nossa volta para a Nova Zelândia. Nesse momento, não sabemos de absolutamente mais nada. Nossas energias estão todas voltadas para a recuperação do meu sogro, o Sr Cachorro, cuja saúde soubemos hoje que já dá sinais muito bons de melhora!

Quando o assunto é a vida das pessoas que a gente mais ama, o fato de que não sobrou pedra sobre pedra em nossos planos já não faz diferença. O que antes víamos como um grande problema ficou tão pequeno, mas não pequeno, que hoje já conseguimos até agradecer por ele existir: se não fosse o Henrique ter perdido a gig, não teríamos entregado nossa casa, o que significa que não teríamos a mobilidade que temos agora de ir ao Brasil correndo caso seja necessário.Arco-íris - Crise dos 30

Desde aquele 13 de agosto, não passou um dia sequer sem que reforçássemos a crença de que temos duas opções: resistir a todas as tempestades que tem nos atingido, brigar com Deus e esbravejar contra tudo; ou buscar enxergar nessas tempestades aprendizados e novas oportunidades. Sou muito grata por conseguir identificar o que é positivo, mesmo em meio a tamanho desespero, e por ter ao meu lado um homem forte, cheio de garra e fé, que mesmo vivendo a pior semana de sua vida (como ele mesmo descreve), não tem se revoltado contra os acontecimentos, mas sim, enfrentado tudo de peito aberto, emanando amor e sensibilidade em cada uma das tantas lágrimas derramadas.

Hoje, recebi do meu pai um e-mail com um texto do Pastor Jonatas, da Igreja Metodista de Vila Planalto, na qual nasci, cresci e me criei. Foi como ouvir a voz de Deus conversando com a gente, o que nos trouxe conforto, acalento e muita, mas muita esperança. O texto é esse aqui:

Vinil

Aquietai-vos, e sabei que eu sou Deus. Salmo 46.10

Ouvir música é, de fato, um dos grandes prazeres da vida. A música nos eleva, nos faz viajar a tempos e lugares, sublinha sentimentos, revela emoções, desmascara tristezas e ilumina alegrias. A música é sempre uma ótima companhia!

O exercício de ouvir música mudou bastante. Vivemos o tempo do som limpo. Sim! Se desejamos curtir uma música, é só ligar o reduzido aparelho eletrônico, colocar o fone no ouvido e imediatamente a canção nos invade de forma límpida, serena, suave.

Recordava dias desses do velho 3 em 1 que tínhamos em casa. Lembro que quando ele chegou, lá pelo ano de 1985, achei que estávamos ficando “chiques”, afinal, podíamos ouvir no mesmo aparelho o Rádio, a Fita (lembra dela?) e os discos de vinil. Era o máximo! Tornou-se comum termos os dias embalados por Manolo Otero, Julio Iglesias, Elba, Joana e, entre os religiosos, Denise – uma cantora juvenil da época, e o maravilhoso Luiz de Carvalho.

Me lembro de, ainda menino, correr ao aparelho e buscar ali na caixa de LPs um de minha preferência. Escolhido o artista, era só sacar o “bolachão”, retirá-lo da capa, tirar do plástico e deitá-lo na plataforma redonda para, em seguida, baixar a pequena alavanca e aguardar. Era um verdadeiro rito.

Mas o que quero aqui compartilhar é que antes da música vinha o grunido. Antes da canção vinha o chiado da agulha caminhando na direção do sulco musical, em gemidos que, à época, me incomodavam. Não havia canção sem aquele barulho meio irritante.

Hoje, lembrando destas coisas, me pego com saudade daquele som distorcido. Virou um dos sons de minha meninice. De certa forma meu velho 3 em 1 me faz pensar que a vida precisa de seus ritos para que os momentos sejam plenamente aproveitados. Nem toda a objetividade é positiva. Por vezes vivemos antecipando situações, correndo demais e resumindo momentos. Lembrando daquele grunido pré-música, me pego refletindo sobre a ação de Deus na vida de cada um de nós. Por vezes nos debatemos em angústia por que não conseguimos ouvir a música que pedimos ao Senhor, sem perceber que o chiado deste momento – que por vezes nos incomoda – pode ser o prelúdio de algo lindo que Deus já preparou para ser “tocado” na estrada de nossa vida. O chiado de agora, pode ser o aviso de que a mão de Deus já baixou a alavanca.

Aproveite o grunido. A música já vem!

Jonatas Rotter Cavalheiro

Pastor Metodista

 

Obrigada Pastor Jonatas por sua inspiração ao escrever um texto tão lindo. Obrigada pai por ter lembrado da gente quando leu. Transformou o nosso dia!

Essa é apenas a mão de Deus baixando a alavanca. Eu creio!

Love,

Carol

Carol Sales

Paulista residente em Auckland, gosta de sol e mar, de chuva e aconchego, de frio e cobertor. Hoje. Talvez amanhã não goste mais.
Acredita que nada acontece por acaso e que a vida dá seu jeito (contanto que a morte não seja o assunto da rodinha) e vive numa eterna batalha entre ir pra academia, ler, escrever ou ficar de bobeira pesquisando sonhos na internet - sonhos esses que 99.9% das vezes tem a ver com definir o próximo destino.