74° DIA: RELATOS DE UMA INQUIETA – “SERÁ QUE O PROBLEMA SOU EU?”

Pensativo - Crise dos 30

O processo de identificar que eu tinha trazido a “minha São Paulo” pro outro lado do mundo não foi assim tão simples. Eu estava completamente esgotada emocionalmente e o trabalho estava consumindo tudo, absolutamente tudo o que eu tinha para oferecer. Para os amigos, pro namorado, pra família, sobrava apenas o resto, só o farelo da Carolzinha.

“O que é que tem de errado com o mundo?” – Eu me perguntava.

Eu me mudei literalmente pro outro lado do globo e ainda assim acabei tendo a mesma vida profissional insana que eu sempre tive, e com a qual eu nunca concordei! Será que ter escolhido seguir carreira em Turismo é que é o meu problema?

Era o segundo semestre de 2013. Fazia um ano que eu tinha assumido a gerência da empresa  e eu estava cansada e totalmente desmotivada. Meio sem entender o que eu estava sentindo, passei a colocar a culpa de toda a tristeza, desânimo e falta de energia pra viver não apenas no fato de que eu tinha um trabalho absurdamente estressante, mas também no fato de que eu estava morando na Nova Zelândia. Eu passei a acreditar que era o país o culpado por eu me sentir daquele jeito e comecei a ver defeitos em tudo o que existia ao meu redor: eu estava sozinha, me sentia sem amigos, longe da minha família, com uma sensação constante de isolamento por estar longe de praticamente qualquer outro lugar do mundo (exceto da Austrália, claro!) e de uma frieza incorporada na alma dos que vivem aqui. Foi num dos meus momentos choradeira do tipo “odeio esse país, não sei o que estou fazendo aqui, sinto saudade da minha família, inverno maldito que não acaba nuncaaaaa”, que ouvi uma frase que mudou totalmente a minha a vida: “O problema não é o lugar onde você está. O problema é você. Você pode se mudar quantas vezes quiser e para onde quiser, mas enquanto você não parar pra entender o porquê você roda, roda e sempre acaba na mesma situação, sua vida nunca vai mudar”.

Foi o Henrique quem me disse isso, com todo o carinho que apenas uma pessoa que te ama muito pode ter com você. Naquele dia, pela primeira vez, eu fui confrontada com a ideia de que o problema poderia ser eu, e não o mundo, o capitalismo ou o mercado de trabalho, e aquilo (por incrível que pareça) imediatamente fez todo sentido. Se as pessoas ao meu redor conseguiam viver uma vida tão parecida com a que eu queria viver, por que é que eu não conseguia?

Crise dos 30 - O que tem de errado comigoAfinal, o que é que eu estava fazendo de errado?

Essa conversa marcou o pico da minha crise, que deixou de ser apenas profissional para abranger todos os aspectos da minha vida. Além do mais, tudo isso aconteceu na mesma época em que um amigo muito querido (que estava lutando contra um câncer no cérebro há mais de um ano) recebeu o diagnóstico de que teria apenas mais alguns dias de vida, e faleceu um mês depois. Ter acompanhado isso de perto me fez começar a questionar todos, absolutamente todos os aspectos da minha vida e todas as minhas decisões. “Só pode ser a Crise dos 30!”, o Henrique dizia. “A maioria das pessoas passa por isso, e pode ser a hora de fazer várias mudanças significativas na sua vida. Só espero que não chegue à conclusão de que precisa trocar de marido de novo!”, ele brincava.

Foi nessa época que eu comecei a tentar encontrar, sozinha, as respostas pra um grande emaranhado de perguntas.

***

Se você me perguntar se eu sei exatamente quando foi que eu percebi que algo estava muito errado, minha resposta será ‘não’. Não consigo lembrar de uma data, nem mesmo de um período que eu possa dizer: “Foi mais ou menos por ali que tudo começou”. Um bom indicativo talvez fosse o fato de que eu comecei a perceber que meu coração acelerava MUITO todas as vezes que eu ouvia o toque característico do iPhone. Às vezes, o Zeca (apelido carinhoso do celular de emergência 24 horas da empresa) nem estava comigo, mas levava alguns segundos até que minha mente se lembrasse disso, então durante esses longos segundos vinha a taquicardia e eu chegava até a colocar a mão no bolso ou a abrir o zíper da bolsa para procurar o danado do celular. Essa sensação horrível só passava quando eu percebia que o telefone não estava comigo (ou então quando eu finalmente o encontrava e o atendia).Dorminhoca - Crise dos 30

Com o passar do tempo, comecei a me dar conta que eu estava dormindo demais. Eu venho de uma família que é bastante chegada no quentinho da cama, e costumo dizer que oito horas de sono pra mim nunca foram suficientes: se me deixar acordar sem despertador, durmo entre nove e dez horas todas as noites (sim, eu também acho uma baita perca de tempo, mas se meu corpo precisa, o que é que eu vou fazer?). Talvez por causa disso, não tenha dado a devida atenção ao fato de que eu estava dormindo mais de 12 horas por dia, principalmente nos dias em que o Henrique estava tocando e eu ficava em casa sozinha, desde a hora que chegava do escritório até umas 10 horas da noite. Eu chegava às 6 da tarde e não queria fazer mais nada, a não ser me enfiar embaixo das cobertas e dormir direto, até o dia seguinte (por vezes, com uma pausa pra conversar com o Henrique quando ele chegava). Eu achava que era apenas o cansaço por causa do trabalho, e por meses essa situação se arrastou sem que eu realmente achasse que tinha algo errado.

Antissocial - Crise dos 30Além disso, na maioria dos dias eu não queria falar com ninguém. Virei uma antissocial de carteirinha, do tipo que até desligava o telefone durante todo o final de semana pra não ter que inventar desculpas caso recebesse algum convite. Eu não tinha vontade nenhuma de sair de casa, nem de receber ninguém. Não queria ir pras gigs, não queria ir pra festas de aniversário, não queria sair pra tomar um café. Eu alimentei a ideia de que eu tinha uma vida solitária na Nova Zelândia e que estava isolada num país que não era o meu e, com isso, transformei minhas palavras na minha realidade: eu não dava chance para ninguém se aproximar. A única pessoa com quem eu me sentia confortável era o Henrique, e com isso eu me fechei no meu mundo e não dei oportunidade para ninguém mais entrar. Incontáveis foram os convites que recusei naquela época, fosse pra um happy hour ou pra um encontro na casa de alguém.

Emocionalmente esgotada e passando a odiar o país no qual eu tinha optado por morar (ainda assim sem achar que simplesmente fazer as malas e voltar pro Brasil seria a solução), eu desenvolvi o hábito de ler blogs e sites sobre viagem e também artigos do tipo: “Como saber se está na hora de você mudar de emprego?” ou “Faça uma viagem de volta ao mundo por um ano pelo preço de um carro popular”. Eu achava que o problema era que eu me cansava fácil dos lugares em que eu estava, e que minha personalidade exigia que eu incorporasse mais viagens e lugares novos na minha rotina.

“Peraí! Viagem é um assunto muito familiar pra mim. É algo que eu aprecio e com certeza uma das top prioridades da minha vida. Eu não vejo mais sentido em nada, nem no meu trabalho, nem em continuar no país onde eu moro, muito menos em passar o ano inteiro trabalhando pra não poder nem ao menos sair de férias por quatro semanas seguidas, sem culpa.”

O que fazer então?Mochileiro - Crise dos 30

Colocar uma mochila nas costas e fazer uma viagem de volta ao mundo pela Ásia, África e Oriente Médio, ué!

Não demorou muito até que eu passasse a acreditar que a solução dos meus problemas seria o famoso gap year, conceito amplamente conhecido pelos americanos e europeus e que está viralizando no Brasil, onde é conhecido como “ano sabático”. Eu precisava repensar a minha vida. Eu precisava redesenhar o meu futuro. Eu precisava de um tempo. Por que não fazer tudo isso viajando?

Ah, isso fazia tanto sentido!!! Tanto sentido que, de uma hora pra outra, esse passou a ser o meu novo projeto.

Love,

Carol

Carol Sales

Paulista que antes residia em Auckland (agora em período de transição), gosta de sol e mar, de chuva e aconchego, de frio e cobertor. Hoje. Talvez amanhã não goste mais.
Acredita que nada acontece por acaso e que a vida dá seu jeito, e vive numa eterna batalha entre ir pra academia, ler, escrever ou ficar de bobeira pesquisando sonhos na internet - sonhos esses que 99.9% das vezes tem a ver com definir o próximo destino.