75° DIA: RELATOS DE UMA INQUIETA – “LARGAR TUDO OU NÃO LARGAR, EIS A QUESTÃO”

Largar tudo para - Crise dos 30

Quando me veio à cabeça a ideia de jogar tudo pro alto (mais uma vez!) e fazer um mochilão, eu tinha certeza que essa era não apenas a melhor, mas a única solução para todos os meus problemas. Comecei a pesquisar freneticamente histórias de quem já havia feito o mesmo, devorei blogs e mais blogs escritos por viajantes que contam detalhes de gastos, acomodação e itinerários, e criei dezenas de planilhas para identificar quanto tempo mais eu teria que trabalhar pra juntar a grana que eu precisava pra cair no mundo por cerca de 9 meses. Cheguei à conclusão que teria que trabalhar por mais um ano mais ou menos, guardando ao menos metade do meu salário para investir na empreitada (o que, considerando o estilo de vida minimalista que adotei aqui na Nova Zelândia, não seria algo muito difícil de fazer).

Eu acredito piamente no poder transformador das viagens. Se eu pudesse, incentivaria a absolutamente todas as pessoas para que buscassem viver alguma experiência desse tipo, pois ela realmente tem o poder de nos fazer crescer e amadurecer a níveis que nem sempre podemos imaginar. Hoje tenho uma opinião bem mais elaborada sobre o “largue tudo e vá viajar” (pra você entender, te aconselho que dê uma lida nesse post aqui), mas naquela época, a ideia de chutar o balde pela milionésima vez, me jogar no mundo, e depois começar tudo do zero, me caiu como uma luva. Era exatamente o que eu precisava e eu estava convencida disso.

Só tinha um detalhe: o Henrique não estava nem um pouco disposto a embarcar nessa comigo.

Eu, durante os mais de dois anos que estávamos juntos, tinha sido a maior incentivadora para que ele voltasse a estudar e entrasse na faculdade de música de Auckland. Esse era um sonho que ele já alimentava há quase seis anos e, no ano seguinte, ao que tudo indicava, finalmente teria a oportunidade de realizá-lo. Além disso, pesava o fato de ele ser dez anos mais velho que eu. Enquanto pra mim ainda era relativamente fácil pensar em embarcar numa aventura dessas, sem necessariamente me preocupar com o futuro, para ele aquele era o momento em que a sonhada estabilidade estaria finalmente dando as caras, e ele poderia começar a realizar as coisas que por tantos anos teve que adiar.

“Depois de tanto tempo me incentivando para realizar esses projetos, vai ser justo você a pessoa a querer que eu abandone tudo agora?”

Eu sabia que ele tinha razão, e eu sabia que nesse aspecto eu estava sendo injusta.

Largar tudo para - Crise dos 30

Eu poderia ter ido sozinha. Eu poderia ter feito uma viagem mais curta e depois voltado para Auckland para encontrá-lo – e se eu dissesse que não considerei essa possibilidade, eu estaria mentindo. Acontece que pra mim não fazia o menor sentido ir sem ele. Ele não era apenas meu namorado, ele era o meu companheiro e o que tínhamos já era tão forte, que realizar o sonho do mochilão à custa de estar longe dele, seria como descobrir um santo pra tapar o outro: no final das contas, não ia resolver nada. Eu não estaria feliz do mesmo jeito.

Crise dos 30 - perguntasA solução que encontramos então foi que esperaríamos até o final de 2017 (?!?!?!) para que ele pudesse primeiro entrar, para depois se formar na faculdade e, quem sabe, até dar entrada no processo de cidadania neozelandesa dele, e aí sim cairíamos no mundo!

Eu, secretamente (e por incrível que pareça), embarquei nesse plano. Digo secretamente pois não contei pra ninguém, além do próprio Henrique. Passei então a juntar todo o dinheiro que podia para dali a quase quatro anos depois poder embarcar no projeto que eu acreditava ser a solução de todos os meus problemas. Nada mais fazia sentido pra mim a não ser o tal mochilão, então eu continuei empenhada em devorar todos os blogs sobre o assunto, me dedicando a planejar ativamente a viagem que ainda estava tão longe de acontecer.

Acho que você não vai se surpreender se eu disser que esse planejamento todo não se sustentou por muito tempo, né? Foi um período em que eu não conseguia pensar em outra coisa, e minha atitude com relação à minha vida atual passou a ser a de alguém que se arrasta, dia após dia, com apenas um objetivo em mente: o dia em que eu receberia minha carta de alforria (ou seja, o diploma do Henrique) e poderia finalmente fazer a única coisa que eu tinha vontade de fazer. Isso tornou a minha vida um inferno! Quem é que conscientemente acha normal a ideia de se arrastar por mais de TRÊS ANOS, pois não existe absolutamente nada mais que dê prazer algum em viver seus dias a não ser a ideia de que dali a uma infinidade de meses poderá, enfim, realizar um objetivo?Tristeza - Crise dos 30

O tempo foi passando e eu fui ficando cada vez mais angustiada. Eu tinha tomado a decisão de ficar em Auckland até o final de 2017, mas aquilo estava longe de ser o que eu realmente queria. Vira e mexe eu tinha umas crises de choro, momentos em que eu não via o menor sentido em continuar insistindo na vida que eu tinha. Eu tinha rompantes onde queria voltar pro Brasil, outros onde eu achava que seria uma boa ideia me candidatar pra trabalhar num navio (de novo!) e outros onde eu achava que o melhor seria simplesmente tentar convencer o Henrique a ir embora comigo.

Em meio a minha obsessão por histórias de pessoas que largaram tudo pra viajar por um tempo, esbarrei em um blog (que eu infelizmente não sei mais qual é) onde a autora contava sobre sua experiência de vender tudo o que tinha pra viajar com o marido durante um ano. No entanto, no texto ela dizia algo que não é nada comum em blogs desse tipo: “Eu não me arrependo de ter pedido demissão do meu emprego e nem de ter vendido tudo o que eu tinha pra fazer essa viagem. Essa foi, sem dúvida, a melhor experiência da minha vida! No entanto, uma hora o dinheiro acabou, e eu tive que voltar num momento em que eu não queria voltar. Se eu pudesse voltar no tempo e fazer alguma coisa diferente, eu teria me planejado melhor para poder fazer desse um estilo de vida, e não apenas uma única experiência na vida”.

Ter lido esse relato me deixou com uma baita pulga atrás da orelha. Eu não conseguia parar de pensar nisso.

Numa noite de domingo em que eu, como sempre, estava sozinha em casa, peguei um lápis e várias folhas de papel e comecei a escrever. Foram páginas e mais páginas, nas quais por horas a fio despejei tudo o que se passava em minha mente. Foi nesse processo de organizar minhas ideias escrevendo todas elas num papel, que eu tive um grande insight:

“Será que minha ‘coragem’ de começar tudo do zero o tempo todo é mesmo coragem, ou apenas fuga?”

“Até quando eu vou resolver os meus problemas mudando de emprego, ou chutando o balde e carregando uma mala sabe Deus pra onde?”

“Será que o que eu quero mesmo é viajar sem rumo e sem planos (algo que será sem dúvida uma experiência fantástica, mas será uma só), ou será que o que eu preciso é começar a pensar em uma forma de não mais me encontrar nessa mesma situação que estou agora daqui a alguns anos?”

“Qual o estilo de vida que eu quero viver? Se eu gosto de estar constantemente em movimento e se eu sofro por estar longe da minha família, mas não necessariamente quero de volta o mesmo estilo de vida que eu tinha em São Paulo, será que a solução será colocar uma mochila nas costas? O que eu vou fazer depois da viagem? Arranjar um emprego como todos os outros que tive em um lugar qualquer, pra depois de dois anos me encontrar no fundo do Eterno Ciclo da Euforia e Depressão de novo?”

Heart“O problema não é o lugar onde você está. O problema é você. Você pode se mudar quantas vezes quiser e para onde quiser, mas enquanto você não parar pra entender o porquê você roda, roda e sempre acaba na mesma situação, sua vida nunca vai mudar”

Com a velocidade e o clarão de um raio, foi como se toda a minha vida se iluminasse à minha frente. As coisas finalmente começaram a fazer sentido e eu compreendi, pela primeira vez, que eu não precisava fazer nada. Exatamente! O que eu precisava era FAZER NADA.

Eu precisava parar de agir feito louca. Eu precisava me silenciar. Eu precisava, de uma vez por todas, me conhecer.

Love,

Carol

Carol Sales

Paulista que antes residia em Auckland (agora em período de transição), gosta de sol e mar, de chuva e aconchego, de frio e cobertor. Hoje. Talvez amanhã não goste mais.
Acredita que nada acontece por acaso e que a vida dá seu jeito, e vive numa eterna batalha entre ir pra academia, ler, escrever ou ficar de bobeira pesquisando sonhos na internet - sonhos esses que 99.9% das vezes tem a ver com definir o próximo destino.