77° DIA: RELATOS DE UMA INQUIETA – “É DEPRESSÃO?”

Depressão - Crise dos 30

Eu passei pelo menos três meses tentando, sozinha, me conhecer melhor. Foi nessa época que eu comecei a ler sites sobre desenvolvimento pessoal e, através do site Nômades Digitais, conheci o trabalho da Alana Trauczynski, da Juliana Garcia, do Bruno e da Larissa com o projeto Moporã e da Paula Abreu. Eu passei a ler ainda mais do que já leio normalmente, e a internet é uma mãe nessas horas: tudo, absolutamente tudo o que você imaginar pesquisar no Google, você encontra – sempre tem alguém que já escreveu sobre qualquer coisa. Não foi difícil descobrir uma comunidade imensa de pessoas que se sentiam exatamente como eu, questionando vários aspectos de suas vidas (principalmente suas carreiras) e querendo dar um giro de 180°, mas sem ter a menor ideia por onde começar.

Acúmulo de informação - Crise dos 30Eu lia diversos artigos e procurava colocar em prática as coisas que os autores sugeriam ali: pegar papel e caneta, sentar num lugar silencioso e tranquilo e fazer lista disso, fazer lista daquilo; relembrar o que você gostava de fazer na infância, identificar em qual momento do seu dia (ou da sua semana, ou da sua vida) você está fazendo algo e nem vê o tempo passar – chances são de que ali mora a sua paixão. Li e-books que falam sobre autoconhecimento e transição de carreira, assisti vários webnários, li livros e passei a acompanhar diversos blogs que falam sobre o assunto. Quem diria que esse se tornaria o meu maior problema…

Sim, porque ao mesmo tempo que eu acumulava milhares de novas informações, eu não conseguia colocar absolutamente nada relevante em prática. Eram tantas novidades, tantas dicas, tanto conhecimento em uma área completamente nova pra mim, que eu fiquei parecendo cachorro correndo atrás do próprio rabo: corria como louca pra sair do lugar, sem perceber que só estava andando em círculos.

Eu costumo dizer que esse foi o período da minha vida em que eu estava tentando ‘coaching myself’, sem nem saber ainda o que era coaching.Dor de cabeça - Crise dos 30

Foi exatamente nessa época que eu estava enfrentando a pior fase no meu trabalho. Nunca, naqueles dois anos e meio em que eu trabalhava lá, eu tinha estado tão esgotada. Praticamente sozinha, eu estava cuidando de todos os detalhes de um grupo de incentivo de mais de 100 passageiros, que se mostrou o mais insano de todos os meus dez anos de carreira em Turismo: foram meses de trabalho árduo para que tudo saísse a contento e ainda assim, durante os dez dias que o grupo esteve entre Nova Zelândia e Austrália, eu simplesmente parei a minha vida e fiquei 24h por dia à disposição deles (e acredite, eles fizeram bom uso de todas essas 24h, durante todos os 10 dias). Segurei a bronca o quanto pude, e digo com orgulho que eles me fizeram chorar apenas uma vez, quando por volta da meia-noite, após um dia exaustivo, me ligavam pedindo alterações para as atividades que aconteceriam no dia seguinte às 8h da manhã. Foi demais pra mim, e eu chorei. Chorei de raiva. De cansaço. De sono. De fome.

Uns dois dias depois de passado o furacão, não consegui nem me recuperar e já tive que viajar a trabalho para mais uma empreitada: dessa vez, na Austrália. Eu estava exausta! Os últimos meses tinham sido super intensos principalmente por ter esses projetos grandes em minhas costas, nos quais me envolvi pessoalmente e cuidei de cada detalhe como se fossem projetos pessoais meus: fiz incontáveis horas extras, trabalhei de casa, aos finais de semana, dei o melhor que eu tinha para oferecer e, no final, descobri a maior puxada de tapete da história! Não foi dos donos da empresa nem nada parecido, mas sim, desse cliente (o maior cliente da empresa), a quem eu dediquei todo o meu trabalho por mais de dois anos criando projetos, testando e alterando procedimentos, treinando a equipe, reorganizando o sistema, tudo para que eles estivessem satisfeitos. Não tem porque eu entrar em detalhes do que aconteceu, pois realmente não tem a menor relevância, mas a verdade é que mesmo eu conscientemente sabendo que as decisões desse cliente não tiveram nada a ver comigo ou com a qualidade do meu trabalho, o baque foi grande demais, e quando me dei conta, eu estava mergulhada num grande mar de merda.

Depressão - Crise dos 30

Eu já estava vivendo uma fase delicada, de muitos questionamentos e em busca de respostas para minha vida profissional e pessoal, mas segundo o Henrique (a única pessoa com quem eu tinha um convívio diário) foi evidente o que toda essa questão profissional fez com o meu emocional: em questão de semanas, ou talvez dias, eu entrei num estado depressivo profundo, onde todos os sintomas que eu já tinha antes pioraram do dia pra noite, na velocidade da luz. Eu chorava todos os dias, não queria falar com ninguém, não queria ir trabalhar. Eu chegava em casa e só dormia, me sentia sem energia para fazer as coisas mais simples – pentear os cabelos exigia muito esforço, passar maquiagem pra sair de casa também, cozinhar então… nem se fala! Passei a ficar constantemente doente, sentia dores nas costas, no estômago, nas pernas, até no fio de cabelo. Comecei a desenvolver uma alergia na pele do rosto, próximo ao couro cabeludo. Passei a ter caspa, meu cabelo começou a cair mais do que nunca, e minha autoestima simplesmente desapareceu. TUDO, absolutamente tudo, perdeu o sentido pra mim.

Naquela época, eu acompanhava os noticiários na tv que falavam o tempo todo sobre terrorismo, sobre as barbaridades cometidas pelo ISIS, meses depois aconteceu o massacre em Paris (aquele do Je Suis Charlie), e isso tudo me deixou num estado de total descrença na humanidade e no mundo como um todo.

“Vale a pena tudo isso? Porque a gente se mata tanto pra ter uma vida descente se o mundo não tem mais nada de bom pra oferecer? Pra que fazer de tudo pra ser uma profissional e uma pessoa do bem se está tudo corrompido? Corrupção, guerra, ganância, estupradores, terroristas, destruição do meio ambiente, contaminação dos nossos alimentos. Monsanto, Shell, a mídia manipuladora. O mundo não tem solução! Estamos fadados à desgraça total e completa.”

Crise dos 30 - exaustaFoi tudo muito estranho e, ao mesmo tempo que aconteceu muito rápido, foi um período que eu senti como se tivesse se arrastado por anos. Sem eu perceber, eu tinha me tornado uma pessoa totalmente sem vida, que se arrastava todas as manhãs pro escritório sem a menor disposição e passava o dia na frente do computador apenas pra cumprir as horas que o contrato de trabalho exigia. Foi diferente de tudo o que já tinha vivido nos meus até então 29 anos de vida. Eu me sentia como se levasse uma nuvem negra comigo pra todo lugar que eu fosse: eu transformei o clima do escritório, que sempre tinha sido tão bom, cheio de colaboração e amizade, em algo absolutamente insuportável. Os funcionários passaram a ter medo de falar comigo, a evitar me fazer perguntas e eu me tornei aquele tipo de chefe que entra na sala e a conversa imediatamente para (exatamente o estilo de gerência que sempre desprezei).

Eu costumo dizer que eu me transformei na sombra de mim mesma. Eu não tinha nenhuma expressão de alegria ou de contentamento, simplesmente me arrastava de um lado pro outro para cumprir as tarefas inevitáveis, e adiava tantas quantas fossem possíveis adiar. Minha produtividade foi à zero, e toda aquela vontade de fazer as coisas acontecerem desapareceu. No trabalho, eu passei a fazer apenas o que era urgente. Em casa, eu só chorava, comia e dormia. Dormia muito, o tempo inteiro.  Eu sentia como se estivesse morta, em vida.

Demorou um pouco até que eu juntasse as pecinhas desse quebra-cabeça. Um dia me veio um pensamento, do nada: “Será que eu estou em depressão?”. Fui pra internet na mesma hora e de cara encontrei um site do governo da Nova Zelândia dedicado ao assunto. Qual não foi minha surpresa quando fiz minha primeira avaliação (online mesmo) e descobri que eu tinha praticamente todos os sintomas (exceto pensamentos suicidas).

Me ver em cada uma das linhas que estavam escritas naquele site foi a sensação mais desesperadora que tive. Eu estava em depressão, e essa descoberta tirou o meu chão.

Love,

Carol

Carol Sales

Paulista que antes residia em Auckland (agora em período de transição), gosta de sol e mar, de chuva e aconchego, de frio e cobertor. Hoje. Talvez amanhã não goste mais.
Acredita que nada acontece por acaso e que a vida dá seu jeito, e vive numa eterna batalha entre ir pra academia, ler, escrever ou ficar de bobeira pesquisando sonhos na internet - sonhos esses que 99.9% das vezes tem a ver com definir o próximo destino.