78° DIA: UM BRINDE A TUDO O QUE DÁ ERRADO EM NOSSAS VIDAS!

Um brinde a tudo o que dá errado

“Somos assim. Sonhamos o voo, mas tememos as alturas. Para voar é preciso amar o vazio. Porque o voo só acontece se houver o vazio. O vazio é o espaço da liberdade, a ausência de certezas. Os homens querem voar, mas temem o vazio. Não podem viver sem certezas. Por isso trocam o voo por gaiolas. As gaiolas são o lugar onde as certezas moram.” – Rubem Alves

Eu estava pensando esses dias sobre a nossa necessidade gritante de TER CERTEZA antes de tomar qualquer decisão importante na vida. O medo de dar um passo em falso é tão grande que ficamos muitas vezes paralisados, esperando um sinal do universo – sinal esse que parece nunca chegar.

Eu sei bem como é ter esse sentimento. Sei exatamente como é ir dormir dia após dia pedindo à Deus que arranque todo o medo do meu coração, que me permita ser livre para arriscar, pois afinal de contas, apenas as pessoas que não tem medo conseguem fazer a transição de carreira desejada, se aventurar no mundo do empreendedorismo ou largar uma vida estável na capital pra ir plantar orgânicos no interior de Minas, não é?

NÃO, NÃO É.

Essa ilusão de que temos que eliminar 100% do nosso medo para somente então dar o primeiro passo rumo a mudança que tanto almejamos é uma das principais barreiras que muita, mas muita gente mesmo enfrenta na hora de tomar alguma decisão importante. Comigo foi exatamente assim. Antes de pedir demissão do meu emprego em maio desse ano e me permitir um período de pausa para colocar minha vida nos trilhos novamente, minha maior angústia era não ter certeza de que eu estava fazendo “o certo”, acompanhada pelo medo que insistia em me fazer companhia: será que estou fazendo a maior burrada da minha vida?

Sinal divino - Crise dos 30Se eu tivesse até hoje esperando um sinal divino, algo que me trouxesse a certeza que eu achava que precisava ter naquele momento, ou se eu tivesse decidido esperar até que aquele medo avassalador passasse, eu não tenho dúvidas de que estaria até hoje no mesmo lugar. Aliás, não tenho dúvidas de que eu estaria num lugar ainda pior, pois chances são que eu estaria ainda empurrando com a barriga um trabalho que estava acabando com minha saúde emocional, além de prejudicar – e muito! – minha autoestima, pois eu me sentia um lixo todos os dias quando fechava as portas do escritório e percebia que eu não tinha produzido absolutamente nada. Eu estava matando a minha criatividade, os meus talentos e, pra piorar, toda a minha vontade de viver.

Ainda hoje, quatro meses depois, eu não tenho vergonha nenhuma de dizer que eu não tenho certeza de nada. Eu não faço a menor ideia se o que estou fazendo com a minha carreira é o melhor que eu poderia estar fazendo. Eu não faço ideia se algum dos projetos que rabisquei até agora vão virar. Eu morro de medo de, daqui a alguns meses, perceber que eu estava iludida e que eu não vou conseguir me manter financeiramente dessa forma.

E tudo bem.

Eu tô tranquila, sabe por quê? Porque eu sei que mesmo que nada aconteça da forma como eu planejei, ainda assim, nada disso terá sido em vão. Se nada mais, eu redescobri o meu prazer pela escrita e o quanto eu gosto de me expressar dessa forma. Eu me redescobri uma pessoa sorridente, positiva e confiante, que traz conforto e alegria e não mais drena a energia das pessoas ao redor. E o principal: eu me reencontrei com a minha capacidade de sonhar – e sonhar, pra mim, é  o que sempre fez a vida valer a pena.

Capacidade de sonhar - Crise dos 30

Eu nunca tive certeza que o divórcio era a melhor decisão a ser tomada. Eu nunca tive certeza que vir pra Nova Zelândia era exatamente o que eu deveria fazer naquele momento. Eu nunca tive certeza que deveria pedir demissão, em nenhuma das tantas vezes que isso aconteceu. Eu assinei os papéis da separação com medo. Quando embarquei naquele avião, eu estava apavorada pois não fazia ideia do que iria encontrar pela frente. Quando assinei minhas demissões, foi sempre com medo da possibilidade do emprego anterior se revelar mil vezes melhor que o emprego novo.

Mesmo em meio a tantas dúvidas e incertezas, o melhor de tudo é poder olhar pra trás e descobrir que cada uma das decisões que tomei me permitiu ser quem eu sou hoje. Mesmo quando “o pior” aconteceu, quando eu realmente me dei mal e acabei num emprego horroroso, bem pior que o anterior, a vida deu seu jeito. Quando deu zebra na minha aplicação para o programa de intercâmbio na Austrália e eu acabei também perdendo a oportunidade de ir pros Estados Unidos, eu fui parar do outro lado do mundo e acabei encontrando meu grande amor. Nada aconteceu exatamente como eu queria, e quer saber? Que bom que tenha sido assim! A vida me surpreendeu – e o resultado acabou sendo muito melhor!Um brinde a tudo o que da errado

Nessa sexta-feira, dia de happy hour e alegria pela aproximação do final de semana, te convido a juntar-se a mim nesse brinde que, há pelo menos quatro anos, tem sido uma marca registrada na minha história:

“UM BRINDE A TUDO O QUE DÁ ERRADO EM NOSSAS VIDAS! CHEERS!”

Love,

Carol

Carol Sales

Paulista residente em Auckland, gosta de sol e mar, de chuva e aconchego, de frio e cobertor. Hoje. Talvez amanhã não goste mais.
Acredita que nada acontece por acaso e que a vida dá seu jeito (contanto que a morte não seja o assunto da rodinha) e vive numa eterna batalha entre ir pra academia, ler, escrever ou ficar de bobeira pesquisando sonhos na internet - sonhos esses que 99.9% das vezes tem a ver com definir o próximo destino.