84° DIA: RELATOS DE UMA INQUIETA – “E CADÊ A CORAGEM DE LARGAR O EMPREGO?”

E a coragem - Crise dos 30

A família foi embora e as semanas que se seguiram foram das mais angustiantes possíveis. Durante a estadia deles aqui eu coloquei o programa de coaching em stand by, pois não tinha condição nenhuma de me dedicar a isso em meio a uma programação intensa de final de ano – programação essa da qual tenho muito orgulho, inclusive! Graças aos meus conhecimentos sobre os destinos turísticos do país e a algumas regalias por ser parte do trade, consegui levar meu pessoal pra conhecer mais da Nova Zelândia do que muita gente que mora aqui há anos jamais conheceu!!! Rolou as piscinas geotermais de Rotorua, o maior lago do país em Taupo, as cavernas de Waitomo, o aeroporto de Christchurch (pois é, somente o aeroporto! rs), a beleza exuberante de Lake Tekapo, os picos nevados de Mount Cook, o charme de Wanaka, a paisagem fantástica de Queenstown e as praias lindíssimas de Coromandel – tudo isso em quatro semanas, e eu sem ter férias! Tá bom ou quer mais?

Desde que me inscrevi no Programa Escolha Sua Vida, eu já tinha feito esse acordo comigo mesma: que o coaching não poderia de forma alguma ser prioridade enquanto minha família estivesse aqui. Eu conscientemente fiz uma pausa de um mês no conteúdo do programa, prometendo a mim mesma que eu voltaria à ativa na segunda quinzena de janeiro, quando a vida voltasse ao normal. Mas quem disse que eu consegui cumprir o combinado?

As semanas que se seguiram foram complicadas, já que eu tinha ainda menos energia para qualquer coisa, fosse para trabalhar, para me dedicar ao coaching ou para seguir com minhas aulas de francês (que eu tinha começado no ano anterior como uma forma de me manter ativa durante as noites que eu ficava sozinha em casa, e que por algum tempo funcionou muito bem, me dando a motivação e empolgação necessárias pra resistir aos encantos do sofá). Foi uma época em que, embora eu não tivesse motivação pra fazer muita coisa, eu estava completamente viciada em tudo que era conteúdo sobre desenvolvimento pessoal e autoconhecimento, desesperada pra abrir um livro e encontrar em um parágrafo a resposta para todas as minhas perguntas, ou então para assistir a palestra de algum guru motivacional pela internet que falasse algo avassalador, algo que me desse uma injeção de ânimo e trouxesse com ela todas as certezas que eu precisava.

Acontece que, obviamente, as coisas não funcionam dessa forma…

Dúvida - Crise dos 30Claro que eu li e ouvi milhares de coisas que me trouxeram uma visão diferente, um conhecimento que eu não tinha ou até mesmo uma forma de ver o mundo que eu ainda não conhecia, e tudo isso me fez muito bem. Foi em todo esse conteúdo disponível  – tanto em livros quanto online – que eu me apoiei nos momentos mais difíceis, quando o medo tomava conta de cada célula do meu corpo e eu tinha um sentimento avassalador de que não havia saída.

O meu trabalho tinha se transformado no fardo mais pesado, e eu não estava nem um pouco satisfeita com o papel que eu estava desempenhando – mas eu não conseguia evitar! Eu literalmente me arrastava pelos meus afazeres, e passava os dias contando cada segundo no relógio para poder ir embora dali. Eu me sentia sem vigor, sem motivação, sem vida, e muitas vezes me sentia também desrespeitada no que eu fazia, no sentido de falar constantemente com as paredes (mas essa já é história pra um outro livro – ops, pra outro blog).

Ao mesmo tempo que eu queria e achava que o certo a fazer era sair do meu emprego, eu me sentia:

  1. Uma adolescente mimada que não queria trabalhar;
  2. Uma adolescente mimada que achava que o trabalho tinha que ser mais, melhor, ter mais significado, etc;
  3. Uma sem sossego que não ficava mais de 2 ou 3 anos em cada emprego, mas que agora já estava chegando aos 30 e precisava de uma vez por todas sentar a bunda na cadeira e ficar ali, onde quer que esse ali fosse;
  4. Uma sem sossego irresponsável, fracassada e sem futuro.

Sim, era tudo isso o que eu sentia com relação a mim mesma. Levou muito, mas muito tempo meeeeeesmoooooo, pra que eu entendesse o porquê de eu nunca me sentir verdadeiramente à vontade e feliz fazendo parte do mundo corporativo (bem, ao menos da forma que ele me foi apresentado… Talvez se eu trabalhasse numa empresa modernóide como o Google, por exemplo, eu me sentisse de outra forma. Vai saber!). Hoje, quando olho pro meu passado e pra toda a minha jornada, eu tenho pra mim que esse processo de entender o porquê de eu ter essa sensação constante de ‘não me encaixar’ começou lá atrás, no dia que eu olhei pela janela do escritório e me perguntei: “Então é isso? Essa será a minha vida pelos próximos, no mínimo, 30 anos?”.

Foram quase 10 anos tentando entender os motivos de eu raramente me sentir feliz com um estilo de vida no qual todo mundo à minha volta parecia estar tão bem ambientado…

Por que eu não estava satisfeita com um bom emprego? Por que eu não estava satisfeita com um bom salário? Por que eu não estava satisfeita com um cargo de gerente conquistado em 3 meses, ainda mais sendo do outro lado do mundo?

Foi somente quando eu, durante minhas andanças pelo mundo do coaching, percebi que o estilo de vidaEstrada - Crise dos 30 que todos os meus empregos até hoje me proporcionaram está na CONTRAMÃO dos meus VALORES mais profundos, que eu comecei a fazer as pazes comigo mesma. Foi somente a partir daí que eu comecei a, verdadeiramente, me entender e me perdoar. Me perdoar por não querer o que a grande maioria quer. Entender a minha falta de sossego e o meu siricutico constantes. Significativo que esse perdão tenha rolado, de mim pra mim mesma, no exato dia do meu aniversário de 30 anos

Vixi! Avancei demais a fita! Volta pra dois meses antes, pra segunda quinzena de janeiro de 2015. Ok, naquela época eu já entendia o porquê de eu me sentir como eu me sentia e o porquê de eu estar completamente infeliz com os rumos da minha vida profissional, mas ainda faltava uma coisa: a coragem de largar o emprego…

Love,

Carol

Carol Sales

Paulista que antes residia em Auckland (agora em período de transição), gosta de sol e mar, de chuva e aconchego, de frio e cobertor. Hoje. Talvez amanhã não goste mais.
Acredita que nada acontece por acaso e que a vida dá seu jeito, e vive numa eterna batalha entre ir pra academia, ler, escrever ou ficar de bobeira pesquisando sonhos na internet - sonhos esses que 99.9% das vezes tem a ver com definir o próximo destino.