96° DIA: RELATOS DE UMA INQUIETA – “PARALISADA PELO MEDO DE PEDIR DEMISSÃO”

pedir demissão

Eita, vocês não vão acreditar o que eu fiz!!! Contei a história na ordem errada!!! rsrsrs

O post de hoje do Relatos de Uma Inquieta tinha que ter sido escrito entre esse aqui e esse aqui. A questão é que antes de eu me descobrir coach, eu fiz uma coisa que é bastante importante de ser citada nessa narrativa toda: eu pedi demissão. Duas vezes. Do mesmo emprego.

Eu estava tão mal e minha vida tão tomada pela depressão, que continuar trabalhando estava se tornando um fardo muito pesado pra eu carregar. Eu estava acabando com minha saúde e com o emocional de todos os que me cercavam, e eu sabia que precisava fazer alguma coisa. Na minha cabeça, o que eu precisava urgentemente era sair do meu emprego, e isso ia muito além do “não aguento mais essa merda”. Além de eu realmente não aguentar mais e estar no meu limite, eu sabia que precisava sair do meu emprego porque eu estava sendo uma péssima profissional: desde que a depressão bateu pesado, em outubro de 2014, eu passei a fazer apenas o que era urgente. Todo meu potencial criativo sumiu, eu não tinha mais ideias, tampouco vontade de fazer alguma coisa – qualquer coisa. Aquilo me incomodava mais do que o desespero da depressão: eu me sentia uma farsa, e achava que não estava mais merecendo o salário que eu recebia.

Lembro que em uma das minhas conversas com o Henrique, onde ele me dizia que eu não tinha que me culpar, pois eu não estava fazendo nada de errado com a empresa (no ponto de vista dele, essa era apenas uma fase ruim), eu respondi:

“Como é que você se sentiria se fosse todos os dias tocar a sua gig, pegasse o violão, colocasse uma música de fundo e passasse as quatro horas fingindo que estava tocando? Você ia voltar pra casa feliz e satisfeito ou se sentindo um merda de um profissional?”

Foi ao me ouvir minha própria voz repetindo essas palavras que eu me toquei que eu, apenas eu, era a responsável pela forma como eu estava me sentindo. Eu estava insistindo em algo que estava acabando não apenas com minha saúde emocional, mas também com minha saúde física, já que eu ficava doente o tempo todo: hora era a coluna que ameaçava travar, hora era uma febre meio sem explicação. Além disso, eu vomitava todos os dias, sentia enjoo e vivia tendo gripes fora de hora.

Eu estava um lixo. No fundo, eu sabia que eu precisava ter coragem de pedir demissão – por tudo o que eu já descrevi, eu sabia que era o certo a se fazer -, mas tinha uma coisa que não me deixava dar nem um passo em direção à essa ideia: o meu medo avassalador (e irracional) de ficar sem dinheiro.

pedir demissão - Crise dos 30

E por que, no meu caso, esse era um medo irracional?

Primeiro, porque naquela época eu já tinha há tempos um visto aberto para permanecer na Nova Zelândia por mais dois anos, fazendo o que eu quisesse: eu poderia trabalhar em qualquer lugar, estudar, ou mesmo não fazer nada. Antes de conseguir esse visto, eu tinha um visto atrelado ao meu empregador, o que significa que se eu pedisse demissão, eu não poderia permanecer no país. Essa já não era mais a minha situação, então metade do problema estava resolvido: se eu ficasse sem dinheiro, poderia procurar emprego em qualquer lugar. Ser imigrante, com ótimo nível de inglês e com visto aberto é algo raro por aqui, vale ouro!

Em segundo lugar, você se lembra que eu contei sobre a época que eu estava juntando dinheiro pra fazer um mochilão, não lembra? Eu sempre fui extremamente controlada com dinheiro, então desde que me mudei pra Nova Zelândia e consegui o emprego na minha área, eu coloquei como meta separar uma quantia do meu salário para ir pra poupança, todas as semanas. Foi isso que me permitiu ir ao Brasil duas vezes, ajudar a trazer meus pais pra cá, viajar pra Bali, comprar um carro velho, etc. Quando eu coloquei na cabeça que faria o mochilão, passei a me esforçar para guardar mais dinheiro, o que significa que, quando comecei a considerar a possibilidade de pedir demissão, eu teria grana o suficiente para me sustentar por mais ou menos um ano, sem trabalhar, num estilo de vida ainda mais minimalista do que eu já tinha. Não seria fácil, mas seria possível.

pedir demissão - Crise dos 30

Então por que eu tinha tanto medo de pedir demissão?

Naquela época, eu ainda não tinha a menor ideia do que eu queria fazer da minha vida, mas eu sabia que eu precisava priorizar a minha saúde, eu precisava me cuidar! E por que não se permitir um tempo pra sair de cena, sair do mercado de trabalho e se dedicar à si mesmo, se você tem uma graninha guardada pra se manter nesse meio tempo? Não é pra isso que a gente faz um pé de meia? Pra usar o dinheiro quando precisa?

Ah, se todas as coisas pudessem ser resolvidas de forma racional… Eu nem tinha tanto medo de me tornar obsoleta no mercado de trabalho: se eu precisasse, dali a alguns meses, voltar pro mercado do Turismo, eu sei que tenho experiência suficiente pra me garantir um emprego decente. O meu problema era outro… Eu tenho uma crença muito forte dentro de mim de que dinheiro é escasso. Se a gente não guarda, a gente não tem, e se a gente não tem, a gente se fode. Eu tenho um pavor absurdo de precisar de dinheiro e não ter da onde tirar. Não é que eu fique guardando um monte de dinheiro e não use, muito pelo contrário. Eu tenho meus planos, tenho minhas metas, e até agora foi o fato de viver com pouco e priorizar meus sonhos que me permitiu não apenas viver momentos especiais, como também proporcionar esses momentos para outras pessoas. Ter um dinheirinho na conta, na minha concepção, é sinônimo de liberdade.

Ok, lindo! Mas por que raios eu não conseguia me apoderar dessa liberdade? Por que esse medo angustiante da falta, do ‘ficar sem’, me tomava e me paralisava?

É, talvez esse seja assunto pra uma sessão de terapia… O coaching já me ajudou bastante a identificar isso e a perceber que o buraco é muito mais embaixo, mas daqui pra frente, acho que só procurando um bom psicólogo mesmo… emoticom

pedir demissão - Crise dos 30Eu peguei papel e caneta, fiz as contas e chamei o Henrique. O plano era que o dinheiro que estava na conta seria para irmos pro Brasil, para a gravação do álbum dele, para pagamento de taxas e para possíveis emergências, e se eu saísse do trabalho, nós viveríamos então apenas com o salário dele (eu conto mais desse processo nesse post aqui). Contas feitas, eu chorei e me desesperei – claro! – mas depois respirei fundo e me dei um prazo: dia 06 de fevereiro de 2015 era a data limite pra eu pedir demissão, sabendo ou não o que é que eu faria da minha vida depois disso. Eu estava longe de ser a profissional que eu sempre fui, mas minha responsabilidade com a empresa e com minha equipe sempre falou mais alto: eu jamais os deixaria em meio ao turbilhão do verão, que é a nossa alta temporada. Então eu aguentei como pude, aos trancos e barrancos, em nome do que eu achava que era o certo a ser feito. Meu último dia na empresa seria o dia 03 de abril.

***

Naquele 06 de fevereiro eu enviei um e-mail aos donos da empresa. Lembro como se fosse hoje o abraço apertado que recebi do Henrique, quando ele me olhou bem fundo nos olhos e disse: “Você não imagina o quão orgulhoso eu estou de você. Você se deu um prazo, e com muita coragem, cumpriu o combinado. Eu achei que você ia continuar empurrando com a barriga, mas você se mostrou ainda mais corajosa do que eu imaginava. Eu sei que essa não foi uma decisão fácil, mas você foi e fez!”.

Naquela hora, ouvir essas palavras era tudo o que eu precisava. Eu estava morrendo de medo.

Love,

Carol

Carol Sales

Paulista que antes residia em Auckland (agora em período de transição), gosta de sol e mar, de chuva e aconchego, de frio e cobertor. Hoje. Talvez amanhã não goste mais.
Acredita que nada acontece por acaso e que a vida dá seu jeito, e vive numa eterna batalha entre ir pra academia, ler, escrever ou ficar de bobeira pesquisando sonhos na internet - sonhos esses que 99.9% das vezes tem a ver com definir o próximo destino.