97° DIA: RELATOS DE UMA INQUIETA – “VOLTANDO ATRÁS”

pedir demissão - Crise dos 30

A notícia da minha demissão caiu como uma bomba na empresa. Como todo pequeno negócio, a empresa que eu trabalhava dependia enormemente de cada um dos funcionários. Cada um tinha uma função importante e muito bem estabelecida, e eu, sendo a gerente, claro que não ficava fora dessa. Foram várias as propostas que eles me fizeram para que eu ficasse, mas eu fui firme e resisti a todas elas. Até que veio o golpe final: a proposta para que eu trabalhasse apenas meio período.

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pedir demissão - Crise dos 30A semana que se seguiu depois do meu pedido de demissão foi totalmente diferente do que eu tinha vivido nos últimos meses. Eu dei dois meses de aviso prévio (mais uma vez, meu senso de dever e responsabilidade falando mais alto) e ainda que nada efetivamente tivesse mudado na minha rotina, o peso que saiu dos meus ombros foi enorme! Só o fato de eu ter tido coragem de pedir demissão me libertou de uma angústia profunda, e eu já conseguia ver uma luz no fim do túnel. Naquela semana eu trabalhei muito melhor, fui à praia, voltei ao meu curso de francês, andei de bicicleta. Eu recuperei minha alegria de viver e, embora eu ainda estivesse sentindo um medo avassalador do futuro, o presente tinha se tornado muito melhor, e isso de alguma forma equilibrou as coisas.

Mas não é incrível o que os nossos maiores medos nos fazem fazer? Se a gente não passa tempo suficiente na vida conhecendo a nós mesmos, dificilmente conseguiremos identificar quando é o medo que está no controle das nossas decisões. Se eu nem sei exatamente do que eu tenho medo, como é que eu vou saber reconhecer quando ele se manifesta?

Quando recebi a proposta de trabalhar apenas meio período, meu pensamento automático foi:

“É, talvez não seja assim tão ruim… Eu poderia trabalhar apenas três dias na semana, e nos outros dias eu poderia me dedicar integralmente ao meu processo de coaching (que eu ainda estava fazendo, como cliente) e à mim mesma: posso cuidar da minha saúde, fazer pilates, Zumba, e com isso pode ser que eu já me sinta melhor”

Bem, ao menos era essa a história que eu contava pra mim mesma… No entanto, lá no fundo, o que se passava pela minha cabeça era: “Se eu trabalhar meio período pode ser que eu melhore, que eu possa cuidar melhor de mim por ter mais tempo livre, mas o principal é que, se eu aceitar, eu não fico sem dinheiro.”

DINHEIRO: era apenas nisso que eu pensava. Eu tinha medo de ficar sem dinheiro e, por causa disso, eu ignorei a minha intuição e todos os sinais que o meu corpo estava me dando há meses.

Pois é… Acredite você ou não, eu voltei atrás na minha decisão e resolvi permanecer no meu emprego.

pedir demissão - Crise dos 30

Chega até a ser engraçado me lembrar dessa época. Engraçado agora, que já passou, mas é de fato hilário que eu tenha voltado atrás numa decisão que eu levei meses pra tomar. Ao aceitar a proposta de trabalhar meio período, eu estava optando por me cegar para todos os sinais, por tapar os ouvidos e assim evitar ouvir minha própria voz.

Mas o nosso corpo sabe das coisas, ele nos avisa. Não demorou nem duas semanas pra que, depois da decisão de voltar atrás, eu voltasse pro fundo do poço. Todo o tímido progresso que eu tinha feito foi por água abaixo, e eu consegui, se é que era possível, ficar ainda pior do que eu já estava. Minha saúde foi pro beleléu, e a impressão que tive é que tudo aconteceu ao mesmo tempo: minha coluna ameaçava travar todos os dias (a ponto de eu ter que começar a tomar remédio diariamente), meu cabelo caia numa quantidade assustadora, eu tinha dores de cabeça o tempo todo e, pra finalizar, uma diarreia me deixou de cama por três dias. A depressão se instalou com tudo e a sensação era a de que eu não tinha saída, e de que meu futuro estava fadado a ser assim.

Eu poderia ouvir minha intuição e sair de vez do meu emprego, mas eu tinha muito medo de ficar sem dinheiro… O que é que eu poderia fazer?

Love,

Carol

Carol Sales

Paulista que antes residia em Auckland (agora em período de transição), gosta de sol e mar, de chuva e aconchego, de frio e cobertor. Hoje. Talvez amanhã não goste mais.
Acredita que nada acontece por acaso e que a vida dá seu jeito, e vive numa eterna batalha entre ir pra academia, ler, escrever ou ficar de bobeira pesquisando sonhos na internet - sonhos esses que 99.9% das vezes tem a ver com definir o próximo destino.