106° DIA: RELATOS DE UMA INQUIETA – “O MILAGRE DA MULTIPLICAÇÃO DA GRANA”

Multiplicação da grana - Crise dos 30

Quando eu pedi demissão do meu emprego, em maio de 2015, minha maior preocupação era a grana. Eu tinha medo de estar tomando uma decisão mal planejada e de acabar ficando sem dinheiro antes do previsto – ainda mais depois que investi uma grana alta na minha formação em coaching, algo que não estava incluso no planejamento inicial.

A decisão foi tomada lá atrás, ainda em março, contando com o dinheiro das gigs fixas semanais que o Henrique fazia. Como ele é autônomo e não tem absolutamente nenhum dos direitos que os outros trabalhadores têm (férias pagas, aviso prévio, etc) nós sempre soubemos que havia o risco do bar, de uma hora pra outra, resolver que não queria mais música ao vivo em um determinado dia da semana, e isso nos colocaria em uma situação complicada financeiramente. Sabíamos disso, mas preferimos ao invés de prever a desgraça, acreditar que tudo ficaria exatamente como estava. E por um tempo realmente ficou.

Na semana seguinte a minha saída do trabalho, nós reestruturamos todo o nosso estilo de vida de acordo com nossa nova realidade. Adeus café da manhã à beira-mar, adeus jantar fora toda semana, adeus cineminha e noites de queijos e vinhos carinhos. Nós já fazíamos a maior parte de nossas refeições em casa, mas depois que eu saí do meu emprego, essa virou uma regra que precisava de muito ponderamento antes de ser quebrada.

“Será que não é melhor pedirmos o chicken schnitzel pra viagem e comprar a cerveja no mercado, do que ir no restaurante alemão que a gente adora e comer lá? Se pedirmos pra viagem, além de ficar bem mais barato, sobra pro almoço de amanhã…”

Pois é, essa passou a ser a nossa vida.

Café da manhã - Crise dos 30Mas sabe o que é o mais impressionante? É que nos primeiros meses – acredite se quiser! – chegou a sobrar dinheiro, mesmo com nosso salário tendo sido reduzido pela metade. Claro que não sobrou um montão de dinheiro, mas lembro de uma semana que, quando olhamos o extrato bancário, ainda tinha $50 dólares e o salário do Henrique já estava prestes a cair na conta. “Que beleza!!! Vamos então nos esbaldar naquele café que a gente ama, mas não pisa lá há meses!!!”, e assim nós fizemos.

Pode parecer pouco, mas foi a maior alegria! Aproveitamos cada minuto daquela experiência que, antes, era tão banal, mas que dessa vez teve um sabor especial: a gente não podia mais tomar café fora a toda hora, e saber disso fez com que aquele momento tivesse muito mais valor.

Eu encarei todo esse perrengue financeiro como um experimento, e foi isso que não me deixou apavorar. Claro que não foi fácil! Eu, que já tinha uma vida bem minimalista, sem o hábito de comprar praticamente mais nada (nem roupas, nem maquiagem, nem acessórios, nem celulares… só compro algo quando realmente preciso, ou seja, a cada seis meses mais ou menos rs) sentia falta das experiências que ter um salário caindo na conta toda semana me proporcionava, por mais simples que fossem: ir a um festival de cinema internacional, comprar um suco natural ou um sorvete quando saia pra caminhar na praia, resolver de uma hora pra hora que não estava afim de cozinhar e ir comer mariscos com batata frita (acompanhados por uma cerveja preta ma-ra-vi-lho-sa) no restaurante belga pertinho de casa. Era dessas coisas que eu sentia falta, mas eu também sabia que, tendo um objetivo muito claro que justificasse o porquê de eu estar me privando disso tudo, eu conseguiria viver sem esses pequenos luxos sem nenhum problema. E foi com isso em mente que eu segui em frente.

Largar tudo para - Crise dos 30

Adaptar meu estilo de vida em prol do futuro que eu queria criar pra mim me trouxe muitos aprendizados – e muitas surpresas. Eu, que tinha um medo absurdo de faltar, percebi que mesmo vivendo uma vida já sem muitos excessos, era possível enxugar ainda mais, sem que isso tivesse um grande impacto na minha felicidade, ou melhor, na nossa felicidade (afinal, o Henrique sempre esteve lado a lado nessa jornada). Morávamos numa casa que amávamos, num dos bairros mais legais que já moramos por aqui, adorávamos nossas noites em casa assistindo qualquer que fosse o filme que estivesse passando na tv e comendo guloseimas que nós mesmos adorávamos cozinhar. Quando ficou muito caro manter o carro, compramos uma motinho usada e economizamos ainda mais com combustível e estacionamento. E com isso, sempre dávamos um jeito de assistir uma estréia no cinema ou de tomar um sorvete caprichado na nossa sorveteria favorita.

E não é que é mesmo verdade que a gente precisa de muito pouco pra ser feliz?

Love,

Carol

 

Carol Sales

Paulista residente em Auckland, gosta de sol e mar, de chuva e aconchego, de frio e cobertor. Hoje. Talvez amanhã não goste mais.
Acredita que nada acontece por acaso e que a vida dá seu jeito (contanto que a morte não seja o assunto da rodinha) e vive numa eterna batalha entre ir pra academia, ler, escrever ou ficar de bobeira pesquisando sonhos na internet - sonhos esses que 99.9% das vezes tem a ver com definir o próximo destino.