108° DIA: RELATOS DE UMA INQUIETA – “A TEMPESTADE E O MOMENTO PRESENTE”

Tempestade - Crise dos 30

Eu lembro como se fosse hoje o dia em que o Henrique me ligou dizendo que o bar tinha cancelado uma das gigs permanentes dele. Naquela época, foi apenas um susto, porque na verdade o que aconteceu foi apenas que ele deixou de tocar às quartas-feiras, mas voltou a tocar aos sábados, então não afetou em nada nosso orçamento. No entanto, aquele foi o primeiro sinal de que as coisas estavam para mudar.

“Meu bem, nós precisamos estar preparados para o que vier daqui pra frente. Pode ser que aconteça mesmo algo para o qual a gente não se planejou, e nós precisaremos saber como lidar com isso quando a hora chegar”, era o meu discurso.

Claro que eu estava preocupada, mas eu estava em paz. Eu tinha claro na minha cabeça que, uma vez que a gente toma uma decisão, as mais variadas situações acontecem para nos testar, para ver o quanto realmente estamos certos e comprometidos com essa decisão. Era como se eu estivesse esperando que os obstáculos inevitavelmente começassem a aparecer: até ali, tudo estava correndo totalmente de acordo com o planejado e, pela minha experiência, não é bem assim que as coisas mais importantes e definitivas na nossa vida acontecem…

Telefone - Crise dos 30Quando eu atendi o telefone naquele 13 de agosto, não posso negar que o coração tenha vindo parar na boca mas, apesar disso, eu estava calma. O bar tinha cancelado mais uma das gigs semanais do Henrique e aquela era a confirmação de que nosso orçamento seria reduzido consideravelmente. Teríamos que tomar atitudes rápidas para que isso não comprometesse o restante do tempo que tínhamos na Nova Zelândia, antes de embarcarmos para o Brasil.

Naquela época, o plano era que eu iria para o Brasil em outubro e o Henrique iria apenas em dezembro. Daquele telefonema pra cá, já se vão 52 dias desde que nossa vida virou de pernas pro ar e todos os planos foram por água abaixo. Tivemos que entregar nossa casa de uma hora pra outra, nos mudamos pra um quarto na casa de um amigo de um amigo, recebemos uma notícia alarmante sobre a saúde do pai do Henrique e, de repente, não mais que de repente, já não tínhamos certeza de mais nada.

Eu estou, desde o dia 25 de agosto, com a minha mala feita e o restante dos meus pertences em caixas empilhadas na garagem. Minhas roupas estão numa mala, dentro do guarda-roupa, pois por vários dias a vida foi tão incerta que eu não sabia exatamente quando eu iria embarcar pro Brasil, então não valia a pena nem desfazer a mala (vai que eu tenho que ir pro aeroporto amanhã?). Eu não sabia mais se iria pro meu treinamento nos EUA, eu não sabia mais se voltaria pra Nova Zelândia em janeiro ou não, eu não sabia se eu teria a grana necessária para fazer todos esses rearranjos nos planos e, o pior, eu não sabia se conseguiria me manter forte o suficiente para ser o porto seguro do Henrique no momento que ele mais precisava.

Dia de mudança - Crise dos 30

De lá pra cá, nossa vida ficou planando no ar. Demorou um pouco pra que a gente conseguisse retomar nossos projetos, meus estudos, nossos planos. Mas chegou o dia em que toda aquela angústia e desespero por estarmos longe da família num momento tão delicado, se transformou em força e determinação para fazermos daqueles 52 dias os mais produtivos que pudessem ser. Já que teríamos que ficar aqui, do outro lado do mundo, durante todo esse tempo, então que fosse um tempo bem aproveitado, que nos levasse mais pra perto dos nossos sonhos e contribuísse para a conquista do nosso objetivo.

Acúmulo de informação - Crise dos 30Parece mentira, mas hoje me sinto extremamente feliz em dizer que essa etapa foi concluída com sucesso! Na quinta-feira passada, eu terminei toda a parte teórica da minha formação em coaching, o que me deu um baita trabalho, mas foi muito recompensador! Por um tempo eu achei que não fosse conseguir terminar, que não fosse encontrar o equilíbrio e o foco necessários para concluir um projeto tão grande num espaço de tempo tão curto, mas de alguma forma eu encontrei a motivação pra concluir o que eu tinha começado, e hoje posso dizer que estou pronta e empolgada para começar a segunda etapa do processo: o inícios dos atendimentos. Não vejo a hora de colocar em prática tudo o que aprendi, e fazer uso do material que preparei com tanto carinho.

Enquanto isso, o Henrique também celebra a reta final de uma corrida contra o tempo para terminar a gravação do seu primeiro disco, enfrentando todos os contratempos possíveis e imagináveis e colocando mais energia e dedicação nesse projeto do que eu jamais o vi colocar em nenhum outro. Disciplinado e focado, me matando de orgulho dia após dia Heart

É certo que nada ocorreu como o planejado, mas não tenho dúvidas de que aconteceu do jeito que tinha que acontecer. Hoje estamos mais centrados, menos iludidos, e mais empenhados em descobrir se esse é mesmo o estilo de vida que a gente quer batalhar pra ter. Trocamos o peso das nossas certezas pela leveza da nossa experimentação e sabemos, mais do que nunca, que nada precisa ser definitivo.

Vamos tentar, vamos testar, vamos experimentar. E se não for isso, não tem problema! A gente muda tudo outra vez.

Love,

Carol

Carol Sales

Paulista residente em Auckland, gosta de sol e mar, de chuva e aconchego, de frio e cobertor. Hoje. Talvez amanhã não goste mais.
Acredita que nada acontece por acaso e que a vida dá seu jeito (contanto que a morte não seja o assunto da rodinha) e vive numa eterna batalha entre ir pra academia, ler, escrever ou ficar de bobeira pesquisando sonhos na internet - sonhos esses que 99.9% das vezes tem a ver com definir o próximo destino.