127° DIA: UM GOSTINHO DA MINHA ANTIGA VIDA

Minha antiga vida - Crise dos 30

Ontem fui pra Paulista encontrar uma amiga para um almoço. Eu precisava estar lá às 14h, então saí de casa antes antes das 12h30. Caminhei até o ponto de tróleibus, sofri um pouco para encontrar um lugar que vendesse o bilhete, fui até o Jabaquara, de lá peguei o metrô até a estação Ana Rosa e fiz a conexão até o Trianon-Masp.

Enquanto estava ainda na primeira parte da jornada, coloquei meu fone de ouvido e fiquei ouvindo o podcast da Liz Gilbert, que ela criou como parte da campanha de lançamento do novo livro dela, o Big Magic (que aliás, estou aceitando de presente, se alguém quiser fazer uma Carol feliz emoticom) e que eu adoro! Mas a verdade é que eu mal consegui prestar atenção no que eu estava ouvindo… Meus olhos estavam curiosos demais, e minha atenção se voltou automaticamente à observação de pessoas.

Do meu lado, um senhor uniformizado, com jeito de que estava na casa dos 50, apagado, dormindo de braços cruzados e boca aberta. Na minha frente, uma senhora por volta de uns 75 anos, com o braço apoiado na janela e a cabeça apoiada no encosto do banco, com uma expressão sofrida e cansada. Em pé, alguns passos à frente, um homem de cabelos grisalhos, mas que não devia ter nem 50 anos, dormindo em pé, apoiado em uma das barras do tróleibus. E do outro lado do corredor, um adolescente, de no máximo 16, 17 anos, agarrado na mochila e dormindo, quase caindo e rolando corredor afora cada vez que o motorista fazia uma curva.

Não pude evitar lembrar de que aquela tinha sido a minha realidade durante boa parte da minha vida, até os meus 25 anos. Num paralelo esquisito, eu imediatamente me vi na imagem de cada uma daquelas pessoas, ao mesmo tempo que já não conseguia mais me relacionar com nenhum detalhe daquele cenário.

Aquela imagem representava a fotografia de tudo o que eu sempre questionei, desde aquele fatídico dia em que cheguei atrasada no escritório. Foi daquela fotografia da minha vida que, em um determinado momento, eu quis fugir.

Minha antiga vida - Crise dos 30

Pensei no quanto é insana essa rotina, de pessoas que por dormirem muito menos do que precisariam, PRECISAM compensar dentro do transporte público. Se conseguir um lugar pra sentar foi luxo à uma da tarde, às 7 da manhã é uma vitória a ser comemorada! “Ah, é hoje que eu tiro aquela soneca!”.

As pessoas estão cansadas. Todas, absolutamente todas as pessoas que observei dentro daquele tróleibus, estavam com expressões de extremo cansaço e exaustão. E eu senti uma baita tristeza. Tristeza, pois sei que são muito poucas as pessoas que têm a oportunidade de se retirar dessa realidade, como eu fiz. E tristeza, pois sei que, ainda assim, existem várias pessoas que têm essa oportunidade, mas que o medo as impede de buscar um estilo de vida melhor, de buscar alguma qualidade de vida, de arriscar, de enxergar novas possibilidades.

E aí eu ouvi de novo, como ouço várias vezes ao dia: “Você pensa em voltar pro Brasil? Acha que conseguiria se adaptar?”

Pensar em voltar pro Brasil? TODOS OS DIAS. Achar que eu conseguiria me adaptar novamente à realidade de São Paulo? Claro! Se preciso fosse… No entanto, de todo meu coração, eu espero não precisar.

Love,

Carol

Carol Sales

Paulista que antes residia em Auckland (agora em período de transição), gosta de sol e mar, de chuva e aconchego, de frio e cobertor. Hoje. Talvez amanhã não goste mais.
Acredita que nada acontece por acaso e que a vida dá seu jeito, e vive numa eterna batalha entre ir pra academia, ler, escrever ou ficar de bobeira pesquisando sonhos na internet - sonhos esses que 99.9% das vezes tem a ver com definir o próximo destino.