130° DIA: MEU PRIMEIRO ASSÉDIO

#primeiroassedio - Crise dos 30

“Eu tinha uns 15 anos de idade. Lembro disso porque sei que morava no Irajá, um bairro em São Bernardo do Campo, e estava dentro do ônibus, num final de tarde, voltando pra casa.

O ônibus estava lotado, no maior estilo lata de sardinha mesmo, sem espaço pra dar um passo. Tinha um cara do meu lado. Naquele aperto dentro do ônibus, eu nem desconfiei quando ele virou de frente pra lateral do meu corpo. Como eu era ingênua…. Sim, eu já tinha 15 anos, mas era virgem e muito, muito ingênua.

Percebi que tinha algo errado ali, mas achava que era coisa da minha cabeça. Eu não vi o pinto dele e ele não colocou a mão em mim, mas eu sabia que tinha algo errado e o que eu queria era descer do ônibus ou pelo menos sair de perto daquele cara. Mas eu não conseguia me mover! Estava muito apertado e eu estava longe da porta. Quando chegou no meu ponto e eu finalmente consegui descer, vi uma mancha branca na minha calça.

Eu vi a mancha e, ainda assim, fiquei em dúvida.

Eu nunca tinha visto porra na minha vida. Fiquei com aquela impressão de que o cara tinha gozado na minha perna, mas eu não tinha certeza. Por via das dúvidas, cheguei em casa e coloquei a bolsa na frente da mancha, para que meus pais não vissem. Porque eu não tinha certeza, eu nunca contei essa história pra ninguém. Aliás, contei sim: ano passado, pro meu namorado. 15 anos depois e eu ainda lembro vividamente daquela sensação de impotência, nojo e dúvida. Por muito tempo eu questionei se aquilo não tinha sido coisa da minha cabeça.”

Essa é a minha contribuição para a campanha lançada pelo Think Olga: essa cena descrita acima, se você ainda tem alguma dúvida, aconteceu comigo. Ontem, a hashtag #primeiroassedio já contava com mais de 82 mil tweets, hoje já nem sei quais são os números. Resolvi me manifestar: antes tarde do que nunca!

Eu nunca assisti o Masterchef Brasil e nem sei quem é a Valentina (uma criança de 12 anos!!!), mas se as pessoas estão se escondendo atrás do anonimato e impunidade das redes sociais para falar todo tipo de absurdo com relação à pedofilia e abuso sexual, nós precisamos mesmo fazer um escândalo, com bem disse a Jout Jout nesse vídeo aqui embaixo:

Quando eu tinha 15 anos, eu tinha vergonha de contar pras minhas amigas e elas rirem de mim, porque eu não sabia identificar com toda a certeza o que era aquele troço branco, então fiquei quieta – por anos!!! Hoje eu sei exatamente o que era a tal mancha, e mais que isso: sei que estou longe de ser a única a ter uma história dessas pra contar. Então quer saber? Vamos contar!!!

#primeiroassedio - Crise dos 30Se todas nós começarmos a botar pra fora nossas histórias, tenho certeza que estaremos ajudando as crianças e adolescentes de hoje a não se sentirem envergonhadas e culpadas quando isso acontecer com elas. Sim, porque nesse caso, infelizmente não é uma questão de “se”, mas de “quando”. É só uma questão de tempo, pra todas as meninas, inclusive aquelas que mais amamos.

É uma questão de tempo pras suas filhas, suas sobrinhas, suas irmãs, suas afilhadas, suas priminhas…

Vamos então nos comprometer a superar essa vergonha e realmente fazer um escândalo!!! E quem sabe, no futuro, elas estejam mais preparadas para lidar com isso, quando o momento chegar, do que nós estávamos.

Guie pelo exemplo: se você não esconder a sua história, elas não vão esconder de você.

Love,

Carol

Carol Sales

Paulista que antes residia em Auckland (agora em período de transição), gosta de sol e mar, de chuva e aconchego, de frio e cobertor. Hoje. Talvez amanhã não goste mais.
Acredita que nada acontece por acaso e que a vida dá seu jeito, e vive numa eterna batalha entre ir pra academia, ler, escrever ou ficar de bobeira pesquisando sonhos na internet - sonhos esses que 99.9% das vezes tem a ver com definir o próximo destino.