157° DIA: O DIA QUE RESOLVI LARGAR TUDO PARA (NÃO) VIAJAR

Largar tudo para viajar - Crise dos 30

“Viajar não é solução, é ferramenta. E ferramenta, cada um decide qual será a sua.”

Já tô eu aqui de novo trazendo a tona o assunto do largar tudo pra viajar. Eu já fiz isso nesse post aqui e também já contei nesse episódio do Relatos de Uma Inquieta como teve uma fase bem recente da minha vida em que era exatamente isso que eu queria fazer, quando por alguns meses até planejei ativamente botar a mochila nas costas e o pé na estrada. No final das contas eu larguei tudo (se é que meu emprego e um salário caindo na conta toda semana podem ser considerados ‘tudo’), mas não foi pra viajar. Eu finalmente entendi que o que EU precisava naquele momento era de uma pausa: pausa na carreira, pausa na correria da vida, pausa pra que eu pudesse me dedicar apenas a me conhecer.

Eu acredito no poder transformador das viagens.

Essa é talvez uma das minhas crenças mais fortes, o lema sob o qual eu vivo a minha vida. Já vivi na pele essa realidade e, embora tenha viajado menos do que gostaria (mas bem mais do que eu jamais achei que viajaria), continuo fazendo dessa uma das minhas maiores prioridades na vida. Eu quero ver muito mais do mundo do que já vi. Eu quero sentir muito mais cheiros e sabores do que já senti. Eu quero abrir muito mais a minha mente ao que é diferente do que já abri.

Por mais que eu ame viajar e tenda a incentivar todas as pessoas a minha volta a fazerem o mesmo, acho que é essencial que a gente comece a discutir com mais frequência e de forma muito mais profunda todo esse movimento que tomou conta da nossa geração, o movimento do…

LARGAR TUDO PARA VIAJAR!

largar tudo pra viajar - Crise dos 30Eu já larguei tudo algumas vezes, e tô começando a aceitar que largar tudo meio que faz parte da minha personalidade. Acho o máximo que cada vez mais pessoas estejam fazendo o mesmo, seja para viajar, para abrir seu próprio negócio ou mesmo para mudar de casa, cidade ou país em busca de um novo estilo de vida, algo que tenha mais sentido e que esteja mais de acordo com os desejos e valores de cada um. Essa coragem de deixar pra trás as ‘falsas seguranças’ às quais nos apegamos o tempo todo é algo que merece, se não aplausos, ao menos respeito.

No entanto, o que me preocupa é que chegamos num ponto em que estamos redividindo a sociedade em “os caretas que não saem da zona de conforto, têm um trabalho convencional das 8h às 5h, investem todo seu dinheiro na compra de um carro zero e um apartamento” e “a galera cool, que larga tudo pra viajar o mundo, que tem um home office ou que vira nômade digital”.

Dá pra ser feliz e viver uma vida cheia de significado e propósito de qualquer jeito, o que não dá é pra ficar destilando ódio pelas redes sociais criticando quem faz o contrário de você.

Em meio a tantos discursos rasos que tratam a questão com uma superficialidade assustadora, do tipo “Se joga na estrada e depois vê o que acontece” ou “Viajar é a solução de todos os problemas de todas as pessoas, e quem não faz isso é porque é acomodado e vive no piloto automático”, é um alívio cruzar com uma galera da blogosfera que está se movimentando pra trazer um pouco mais de reflexão e algumas abordagens diferentes pra esse tema.  Por exemplo, a Luisa do blog Janelas Abertas, que em agosto publicou esse post aqui, com uma visão bastante interessante sobre o tema; ou então o pessoal do 360 Meridianos, que vira e mexe traz alguma reflexão interessante e bem no estilo “pensar fora da caixa”, coisa tão essencial e tão rara atualmente.

Minha opinião é que enquanto a gente não resolver se conhecer, de verdade, vamos continuar vivendo a vida com base nos sonhos dos outros, mesmo quando parecer o contrário. Não há dúvidas que largar tudo pra viajar é uma das formas mais fantásticas de se dedicar ao autoconhecimento (eu creio nisso!), mas é aí que entra a máxima:  “Viajar não é solução, é ferramenta. E ferramenta, cada um decide qual será a sua.”

Largar tudo pra viajar - Crise dos 30

POR QUE LARGAR TUDO PRA VIAJAR VIROU CONDIÇÃO PRA SE TER UMA VIDA LIVRE?

Pra falar sobre isso, a gente precisa também trazer à tona que o conceito de sucesso amplamente aceito pela “sociedade” (ou seja, por nós), estruturado sob os pilares do dinheiro e do poder, está ficando cada vez mais obsoleto, onde não apenas as pessoas já estão questionando o quanto será que essa loucura vale a pena, mas também a ciência já tem provado que quando se tem uma vida confortável e dinheiro suficiente para suprir suas necessidades, ter mais dinheiro não traz mais felicidade.  Aliás, recomendo para qualquer pessoa que tenha interesse sobre o assunto o livro Thrive (em português tem o título “A Terceira Medida do Sucesso”), da Arianna Huffington, cofundadora do Huffington Post. No livro, ela traz uma infinidade de estudos e estatísticas sobre o assunto, além de propor muitas reflexões importantes, como por exemplo, ao dizer que poder, stress, sensação de que não se tem tempo pra nada, ser um workaholic incurável (que ainda é visto como status, como cool, como sinônimo de pessoa bem-sucedida) é um estilo de vida furado, e o aumento dos casos de depressão e diversas doenças que nascem a partir daí são prova disso.

E quando é que a gente não se sente assim? Em que momento da nossa vida a gente consegue esquecer essa corrida dos ratos e fazer exatamente o contrário?

Largar tudo pra viajar - Crise dos 30Quando a gente viaja, ué!

Pensando dessa forma, não é tão difícil entender por que viajar é tão facilmente encarado como solução de todos os problemas de todas as pessoas, embora racionalmente a gente saiba que isso não faz o menor sentido – mas seguimos acreditando em tudo sem refletir, sem questionar, sem nos fazer perguntas. A gente aceita essa forma 8 ou 80 de ver a vida como algo natural, já que entra nessa meio que por embalo.

Eu acho que essa onda tende a se enfraquecer, como todas as outras ondas uma hora ou outra se enfraquecem.

Por exemplo, em breve, as pessoas que hoje vivem mais sua vida virtual do que sua vida real, passando a maior parte dos seus dias com as cabeças baixas olhando pra tela de seus smartphones, serão julgadas da mesma forma que as pessoas que mantêm seus empregos em escritórios, pois os “cool” vão se libertar disso primeiro e criar uma nova tendência. É isso o que a gente faz: substituímos padrões que vencem e aos poucos passam a não nos servir mais. Outro exemplo é que, algumas décadas atrás, o bacana era ficar 30 anos no mesmo emprego, começar como office-boy e crescer na pirâmide hierárquica da empresa até chegar a gerente, diretor, presidente. Hoje em dia, quantas pessoas você conhece que têm uma trajetória profissional dessas? Se um adolescente de 17 anos te dissesse que esse é o sonho da vida dele, você provavelmente daria risada, diria que ele tem pouca ambição ou no mínimo acharia esquisito, não é mesmo? Já pro seu pai, isso provavelmente seria algo natural. É tudo parte da evolução. Hoje o cool é largar tudo e cair no mundo, pois são essas pessoas que estão tendo a coragem de ir contra o convencional, mas eu sinceramente acredito que é possível ter um emprego normalzinho e uma vida incrível, com muita qualidade e sendo verdadeiramente feliz com sua escolha.

Ponto de exclamaçãoTudo depende do que faz sentido pra você.

Pense por esse lado: se estabilidade financeira é um de seus valores, virar empreendedor tem tudo pra te enlouquecer (pelo menos até que a coisa entre de vez nos eixos)!!! Se todos os seus amigos estiverem fazendo isso, não importa! Se você entrar nessa simplesmente porque parece que é o novo modelo máximo da liberdade… Bem, acho que nem precisamos conversar sobre as consequências, né?

Se conheça primeiro, saiba quem você é, o que você valoriza, qual o SEU CONCEITO DE SUCESSO e qual estilo de vida VOCÊ quer ter. Depois disso, fica bem mais fácil tomar decisões acertadas e viver verdadeiramente uma vida nos seus próprios termos.

Não se engane: tem muito escravo da opinião alheia com uma mochila nas costas viajando por aí…

Love,

Carol

Carol Sales

Paulista que antes residia em Auckland (agora em período de transição), gosta de sol e mar, de chuva e aconchego, de frio e cobertor. Hoje. Talvez amanhã não goste mais.
Acredita que nada acontece por acaso e que a vida dá seu jeito, e vive numa eterna batalha entre ir pra academia, ler, escrever ou ficar de bobeira pesquisando sonhos na internet - sonhos esses que 99.9% das vezes tem a ver com definir o próximo destino.