236° DIA (QUE ERA PRA SER O 222°): O DESAFIO CHEGA AO FIM…

Linha de chegada - Crise dos 30

Não me pergunte o motivo de eu ter relutado tanto em escrever esse post. Minha consciência não saberia responder… Tá certo que desde que cheguei em Auckland, há exatos 16 dias, a correria foi insana e eu realmente não tive muito tempo ou cuca fresca pra escrever tudo o que eu queria, do jeito que eu queria. Acontece que, a essa altura do campeonato, eu não tenho mais coragem de culpar a falta de tempo – me sentiria envergonhada por tamanho sinismo ou, no mínimo, vitimismo descabido. Sabe como é, né? Não combina mais…

Eu tive tempo, é claro que eu tive tempo. Mas eu não fiz. Até esse exato momento.

O que começou como um desafio de 222 dias, hoje completa 238. Quer saber os números?

Dos 222 dias iniciais, em 36 deles eu não cumpri com o combinado de escrever todos os dias. Simplesmente não dei as caras no blog. Desses 36 dias, 4 foram em Outubro, 3 em Novembro, 9 em Dezembro e o restante todos em Janeiro, sendo que o desafio começou em Junho.

Por que será que eu fui deixando de comparecer mais pro final?

Eu olho esses números e, num primeiro momento, minha reação automática é me criticar:

“Que vergonha heim, Dona Caroline? Não conseguiu cumprir com sua palavra 16% do tempo! Que decepção…”.

Mas aí, logo em seguida, vem um sorrisinho de canto de boca…

Talvez esses números, se observados com outros olhos e por outra perspectiva, por si só já mostrem o quanto eu progredi no meu próprio objetivo (mude seu foco, mude sua vida, lembra?). A questão é que chegou um ponto em que eu estava tão bem comigo mesma, tão de bem com minha vida e com minha nova jornada, que a escrita diária (a qual eu tinha me agarrado com todas as forças no começo dessa deliciosa loucura), passou, gradativamente, a ser secundária. As coisas estavam avançando tanto, eu estava tão feliz junto da minha família e amigos, que nem culpa eu sentia mais quando meus compromissos, viagens ou minha agenda de trabalho com meus clientes de coaching não me permitiam mais me dedicar ao blog.  Lá nos primeiros meses isso era totalmente diferente…

Hoje, olhando pra trás, sinto como se aquela fosse outra pessoa, não eu, vivendo em um outro mundo.

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Largar tudo pra viajar - Crise dos 30

Esses dias, assistindo uma entrevista da Marie Forleo com o guru milionário David Bach, me toquei de uma coisa interessante: eu acabei de voltar de um período sabático. Pois é… Até então, eu não tinha visto essa minha experiência dessa forma, nem dado a ela esse nome.

Engraçado como a gente tende a associar ano sabático com o “largar tudo e fazer um mochilão pelo mundo”, né? Não foi isso que eu fiz, ainda assim, hoje eu sei que o que eu vivi foi um período sabático. Foram 9 meses em que eu parei, respirei e decidi conscientemente tomar outro rumo: o rumo de dentro.

Quando vejo isso dessa forma, não consigo evitar de pensar que eu poderia ter aproveitado muito mais esse tempo precioso que me dei. Eu poderia ter verdadeiramente inserido novos hábitos alimentares e de exercícios físicos na minha rotina. Eu poderia hoje ser uma pessoa com uma prática saudável de meditação, yoga e alimentação orgânica, mas eu não me tornei nada disso. Ainda tô numa batalha interna com minha mente, antigas crenças e – por que não? – com a preguiça de passar pela fase dolorosa da mudança de hábitos. Tem sido uma batalha constante, mas eu sei que vou chegar lá. Pelo menos hoje me sinto bem mais preparada; falta focar pra verdadeiramente me tornar essa pessoa – essa pessoa que eu quero tanto ser.

Por outro lado, não me arrependo de nenhum dos 3 quilos que engordei nessa temporada Brasil/Estados Unidos. Foram vários pastéis da Olga, o torresmo delicioso do Magelinha, a lasanha e o canoli de massa feita em casa do Cói e da Vivi, os brigadeiros deliciosos dos mais diversos sabores da Kaká, o famoso talharim da vó Di, as aclamadas Fatias Húngaras e o bolinho de carne com batata da mamãe, as noites mexicanas do Pi e da Lu, o escondidinho de carne seca da Paty, os churrascos em Dom Pedrito, o feijão tropeiro da tia Thê e da tia Wilma, os sucos de fruta deliciosos da tia Valéria e da tia Léia, o fricassê de frango do Tico e da Virgínia, os canudinhos, as noites da pizza, os brownies de Cataguases. Foi uma comilança generalizada – e me fez tão bem! Decidi adotar a mesma técnica da Liz Gilbert no Comer, Rezar, Amar: comprei um jeans maior. Literalmente. E não me arrependo de nada. Eu vivi tudo o que eu tinha pra viver, na companhia das pessoas que eu mais amo e de quem mais sinto falta no meu dia-a-dia.

Quer saber? Tenho o resto do ano pra emagrecer…

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Linha de chegada - Crise dos 30

Claro que isso não anula o fato de que de vez em quando ainda me bate um desânimo quando penso no quanto ainda tenho que caminhar pra conquistar meus objetivos. Mas eu vi um video do Gerônimo Theml (sem dúvida um dos maiores ganhos que tive quando me enfiei na loucura do marketing digital – o cara é “de verdade”, entende?) em que ele diz que não podemos analisar nosso progresso com base no quão longe estamos do nosso ponto B (nosso objetivo), mas sim, do quanto já nos afastamos do nosso ponto A (nosso ponto de partida).

Ah, isso fez tanto sentido pra mim! Me fez parar de me julgar pelo que poderia ter sido e não foi, e me ajudou a mudar o foco e enxergar o quanto eu caminhei, o quanto eu produzi e o quanto eu avancei nesses 9 meses. Eu posso ficar aqui por horas falando pra você do quanto eu estava mal lá no final de 2014 e, mesmo assim, eu jamais vou conseguir pintar esse quadro com todas as cores. Só quem estava pertinho viu, e não foi bonito. O fato de eu ter conseguido sacodir a poeira, me levantar, ter voltado a estudar, a me comprometer com algo, a sonhar, a querer seguir adiante e ter chego no final daqueles 222 dias brincando feliz num parque de diversões, cheia de sorrisos e livre de preocupações, realmente acreditando que a vida dá seu jeito e que o melhor com certeza ainda está por vir, foi minha maior vitória.

E aí vem a pergunta que nem sei quantas vezes já precisei responder:

“Mas como é que você consegue estar tão tranquila sendo que você volta pra Auckland daqui alguns dias, sem casa, sem trabalho, sem dinheiro caindo na conta pra te sustentar? Como é que você vai fazer?”.

Olha, se eu te disser que tudo foram flores e puro relax, estarei mentindo. Uma vez, quando minha mãe me perguntou por que eu estava voltando pra NZ se minha situação era tão delicada assim, eu respondi: “Mãe, não se preocupe. Esse foi um risco calculado. Eu sabia que isso iria acontecer desde o início, quando pedi demissão do meu emprego e comprei minha passagem pra passar 3 meses no Brasil. Saber disso não faz dessa situação mais fácil, é verdade, mas eu sabia que esse dia ia chegar, então estou preparada pra lidar com ele”.

O que eu fiz foi conscientemente decidir viver apenas o presente, até quando isso fosse algo responsável e possível. Isso significa apenas que eu escolhi me preocupar com meu retorno para a Nova Zelândia somente no momento em que eu verdadeiramente pudesse fazer alguma coisa. Antes disso, não permiti que o desespero e ansiedade arruinassem tudo o que eu estava vivendo: a realidade de estar com minha família por um período maior que 4 semanas de férias, ainda por cima podendo trabalhar e ganhando experiência numa nova carreira a qual eu simplesmente não consegui ficar indiferente depois que descobri que existe.

Foi isso. Foi apenas uma decisão. Foi minha escolha consciente.

Mas inevitalmente chegou a hora de me preocupar, e em alguns momentos eu confesso que cheguei a ter vontade de chorar. Acho que até chorei. Mas isso não me impediu de sentar na frente do computador, dias antes do Natal, e tomar uma decisão: a decisão de atualizar o meu currículo em inglês.

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Multiplicação da grana - Crise dos 30

Meu “coaching business” estava (e ainda está) indo surpreendentemente bem: agenda lotada e fila de espera que me manterão ocupada por uns bons meses. No entanto, todos os meus clientes, naquele momento, estavam no Brasil, então me diz aí: como é que a gente faz pra fechar as contas recebendo em Real e gastando em Dólar?

Eu precisei tomar uma decisão, e quando digo decisão, estou bem longe de sugerir que eu não tive escolha. Sim, eu tive escolha. Eu poderia ter escolhido focar totalmente na minha nova carreira como coach, e eu não tenho dúvidas que ela me traria frutos lindíssimos (como já tem trazido através das descobertas e das transformações na vida dos meus coachees), acontece que os resultados financeiros seriam a médio prazo, e eu percebi que eu não estou disposta a esperar. Pra falar a verdade, apenas a ideia dessa espera chega a me deixar sem ar.

Se tem uma coisa que eu aprendi durante minha vivência em coaching é que é o fato de vivermos de acordo com nossos valores que nos faz felizes e realizados.

Hoje, eu tenho total consciência de que Estabilidade Financeira é um dos meus valores, bem como Liberdade, Família e Independência. Voltar pro mercado de trabalho das 8 as 5 fere alguns dos meus valores mais altos, mas não voltar, nesse momento, significaria ter pequenas taquicardias toda semana na hora de pagar o aluguel ou comprar mistura pro jantar. Ou pior, significaria reduzir drasticamente minhas opções de moradia e comprometeria (e muito) o conforto que eu considero mínimo, nesse momento: um espaço pra chamar de meu num bairro que eu curta e que não me faça viver de novo o meu pior pesadelo: o do trânsito.

Então eu tive que escolher. E utilizando de técnicas de coaching (como não?) eu decidi que, nesse momento da minha vida, o melhor a fazer seria arranjar um emprego que me pague um salário bacana e me permita “respirar aliviada” pela primeira vez em nove meses. Afinal de contas, por motivos de visto não poderei deixar a Nova Zelândia por mais de 3 meses durante os próximos dois anos, então por que não continuar desenvolvendo minha carreira como coach durante a noite e aos finais de semana, enquanto estabilizo o lado financeiro num emprego fixo durante esse tempo?

Essa decisão poderia facilmente se tornar um pesadelo. Não é fácil dividir o espaço dos seus sonhos com um modelo de trabalho no qual você não acredita mais. Mas isso não significa que eu precise me fechar pra novas possibilidades, e essa, no meu caso, tem sido sinônimo de um belo desafio (também um dos meus valores principais).

Deixa eu explicar… Em dezembro eu vi duas vagas de emprego num site conhecido na Nova Zelândia, pra algo que nunca fiz na vida mas que sempre tive vontade. Preparei meu currículo, respirei fundo e, morrendo de medo, enviei os e-mails.

Enviei dois currículos. Recebi duas respostas. Fui chamada para duas entrevistas. Passei para a segunda fase as duas vezes. No final, recebi uma proposta de emprego. Isso significa que você está agora numa conversa com a mais nova professora de Turismo da New Zealand School of Tourism.

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Pedir demissão - Crise dos 30

Ah, eu tô cheia de dúvidas! Se você me conhece um pouquinho melhor sabe que, mesmo depois de quase 5 anos morando em Auckland, de já ter estudado inglês em Cape Town e trabalhado nos EUA, eu tenho um bloqueio enorme com a qualidade do meu inglês falado. Sou insegura e sempre acho que poderia estar melhor, morro de raiva quando as pessoas não entendem o que eu falo e me sinto inferior quando me expresso nesse idioma. Sabe aquela sensação de que tá todo mundo tirando o sarro de você pelas costas e te achando uma baita idiota? Então…

Mas eu meti as caras. Desde muito nova penso em ser professora e, pra ser bem sincera, acho que tenho talento pra coisa (mesmo sem nunca ter tido experiência nenhuma nisso). Essa é uma daquelas possibilidades que eu pensava pra, quem sabe, no futuro, quando tivesse mais experiência, mas aí vi o perfil da vaga e – pasme! – ela descrevia exatamente a experiência que eu já tenho! Resolvi confiar e me abrir pra novas possiblidades: quem sabe eu não curta pra caramba essa nova profissão? Não precisa ser pesado nem sofrido: é apenas uma nova experiência que pode trazer novas oportunidades e possibilidades jamais consideradas – não precisa ser sinônimo de prisão nem de fracasso, muito pelo contrário! Tudo depende do olhar de quem olha…

Está lone de ser um período numa solitária em Alcatraz...
Está lone de ser um período numa solitária em Alcatraz…

Enfim, fiz a minha parte e coloquei nas mãos de Deus, e o resultado disso é que hoje assinei meu contrato de trabalho. Coincidentemente ou não, foi hoje também o dia que eu informalmente assinei o contrato de aluguel da nova casa: me mudo sábado, de volta pra região da cidade que eu mais amo (ou seja, colado na praia!), pra uma casa maior, mais aconchegante, onde terei inclusive meu próprio escritório, o que significa poder atender clientes de coaching presencialmente. Chega de atender em lugares improvisados, equilibrando computador no colo e escrevendo numa folha apoiada no chão (meus clientes que o digam, né? Hahaha).

Em meio a um turbilhão de acontecimentos num prazo tão curto de tempo, onde tudo parecia estar dando errado (três casas que vimos e gostamos não deram certo), as coisas se ajeitaram em, literalmente, 90 minutos. Toda a angústia que existia no café da manhã de hoje pelo fato de começar no meu emprego novo já na segunda-feira e ainda estar morando do outro lado da cidade (o que seria o caos instalado na nossa rotina) se esgotou em menos de uma hora e meia. Um ‘não’ desolador chegou por e-mail as 9h04 da manhã, e o ‘sim’ que nos fez pular de alegria em cima da cama chegou exatamente uma hora depois; mas ainda assim estava preocupada pois a casa que conseguimos era consideravelmente mais cara do que estávamos querendo pagar, embora tivesse a vantagem de um quarto extra que se transformaria em escritório.

Acredite se quiser: menos de 20 minutos depois disso recebi uma mensagem de um cliente em potencial querendo saber informações sobre processo de coaching aqui na Nova Zelândia. Pronto! Entendi o sinal: “Pare de se preocupar, mulher! Assine logo o contrato dessa casa pois esse quarto extra vai se pagar sozinho. Vai ser o seu cantinho do coaching!”.

A vida dá ou não dá seu jeito, mesmo quando não é o jeito que a gente planejava? Eu não apenas acredito nisso, EU VIVO ISSO!

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Mudar de vida - Crise dos 30

E é nesse clima que eu termino o Desafio dos 222 dias: mais grata, mais tranquila, mais confiante e, de certa forma, mais sábia. Eu desenvolvi um novo olhar, olhar esse que é colocado a prova em vários momentos do meu dia, todos os dias.

Nesse momento, estou sentada na cama temporária que abandonarei dentro de dois dias, feliz e contente de mudança pra minha casa nova. Uma casa que estava totalmente fora dos planos, fora do orçamento, fora dos meus sonhos mais loucos. Engraçado que faz semanas que eu via o anúncio dela na internet e pensava: “Quem sabe um dia? Ainda não está ao nosso alcance”. Cheguei até a falar isso pro Henrique. E de repente… tô de malas prontas pra lá!

Continuo meus processos de coaching, adaptando os horários e me organizando da melhor maneira que encontrei, feliz da vida por estar vendo resultados tão fantásticos no sorriso e nas palavras dos meus coachees, disposta e mais empolgada do que nunca a continuar me dedicando e me aprimorando nessa profissão pela qual me apaixonei tão loucamente. E claro, tô tremendo de medo (embora extremamente empolgada) com a chegada da segunda-feira, quando entrarei de cabeça nessa nova experiência que me deixa até boquiaberta: se alguém confiou na minha habilidade de dominar uma sala de aula de um curso técnico em inglês, por que logo eu não vou confiar?

E assim eu me despeço do meu desafio, com de lágrimas nos olhos e um sorriso imenso no rosto. Foi uma caminhada e tanto…

Obrigada por ter passado por aqui de vez em quando. Você me ajudou mais do que jamais conseguirá imaginar. Esse desafio foi a minha cura, espero que tenha te ajudado em algo também.

Lots of love

Carol

Carol Sales

Paulista residente em Auckland, gosta de sol e mar, de chuva e aconchego, de frio e cobertor. Hoje. Talvez amanhã não goste mais.
Acredita que nada acontece por acaso e que a vida dá seu jeito (contanto que a morte não seja o assunto da rodinha) e vive numa eterna batalha entre ir pra academia, ler, escrever ou ficar de bobeira pesquisando sonhos na internet - sonhos esses que 99.9% das vezes tem a ver com definir o próximo destino.