Sobre não se encaixar

Eu sempre fui muito conversadeira. Na adolescência tinha grupos de amigos com os quais tinha muito em comum, e passar horas batendo papo e jogando conversa fora nunca foi um problema: faltava tempo e sobrava assunto. Era uma época em que eu, sem dúvida, sentia que me encaixava. Eu pensava como as pessoas que me rodiavam, e as pessoas que me rodiavam pensavam como eu.

Sei que estou longe de ser a única que, à medida que vai envelhecendo, se vê com um grupo cada vez mais reduzido de amigos e com uma vida social cada vez mais restrita. Passei dos 30, rapaz! Sou bem mais criteriosa e minha paciência pra algumas coisas está pequenininha, pequenininha, quase inexistente. Certos programas não me apetecem mais, certas conversas então…

Acho que tô ficando chata. Ou então devo mesmo estar vivendo num mundo paralelo…

Esses dias me dei conta, pela primeira vez, do quanto não tenho mais disposição pra conversar sobre meus planos, meus anseios e a visão que tenho pra minha vida. Acabo ficando em território seguro, como o tempo, os preços do mercado, o filme que acabou de estrear no cinema.

E não é culpa de ninguém. Não sou do tipo que acredita que as pessoas estão desinteressantes, muito pelo contrário! Eu amo gente! Eu amo as complexidades do ser humano, o jeito de sonhar diferente, de se preocupar diferente, de viver diferente. Sou fascinada por essa pluralidade mas, ao mesmo tempo, sou apenas mais um: um ser com necessidade de encontrar sua tribo, de poder verdadeiramente falar a mesma língua daqueles que me cercam. No final das contas, não importa o quão hermitão a gente seja, temos mesmo a necessidade de pertencer – é natural do ser humano.

Claro que quando digo “falar a mesma língua” não me refiro à português, inglês ou espanhol. Ah, se o problema fosse apenas o idioma…Seria tão mais fácil de resolver!

Muitas foram as vezes que eu tentei ter uma conversa que fosse além das trivialidades do dia-a-dia, que envolvesse objetivos de vida e planos futuros, mas no final geralmente acaba num “Você é louca! Isso que você quer não existe!”, ou então, num silêncio sem graça de quem não quer te magoar, mas também não tem muito mais a acrescentar.

E eu sei que eu não sou a única. Desde que coloquei esse blog no ar, já recebi centenas de mensagens de pessoas que se sentem assim, que me agradessem por colocar em palavras tudo o que se passa na cabeça delas. Gente que se diz aliviada por encontrar quem questione, sinta e sonhe parecido. Gente que entende. Eu adoro isso! Adoro esse contato que ter um blog me proporcionou, as histórias que pude ler, as novas amizades que pude fazer.

Uma boa parte da nossa tribo aqui no Crise dos 30 é também constantemente chamada de louca, exatamente como fui esses dias. Louca por querer tentar algo novo, por me atrever a acreditar que um estilo de vida diferente do que eu tenho é possível, e a almejar algo fora do padrão. Não pude evitar um sorrisinho de canto de boca… É que outro dia li por aí que se te chamarem de louco, inconsequente, irresponsável, é sinal de que está no caminho certo.

Nem dei mais detalhes sobre os meus planos. Se desse, a oposição seria tanta que acabaria me convencendo ali mesmo que estou no caminho mais certo de todos; faria minhas malas no minuto seguinte e pegaria o primeiro voo pra Bali onde passaria meus dias vivendo num chalé em meio à plantações de arroz ensinando inglês para crianças. (Não, não é esse o plano… Mas falando assim, até que não parece uma má ideia…)

Love,

Carol

Carol Sales

Paulista residente em Auckland, gosta de sol e mar, de chuva e aconchego, de frio e cobertor. Hoje. Talvez amanhã não goste mais.
Acredita que nada acontece por acaso e que a vida dá seu jeito (contanto que a morte não seja o assunto da rodinha) e vive numa eterna batalha entre ir pra academia, ler, escrever ou ficar de bobeira pesquisando sonhos na internet - sonhos esses que 99.9% das vezes tem a ver com definir o próximo destino.