Sobre a necessidade – ou não – de se encaixar

Depois que publiquei o post sobre não se encaixar, recebi alguns comentários via Facebook, mensagens privadas e e-mail, de pessoas me dizendo o quanto gostaram do texto, que compartilham da mesma opinião ou que vivem algo parecido. E muita gente dizendo tudo isso, mas também questionando a real necessidade de se encaixar, dizendo que não devemos nos encaixar em nada, que temos é que cada vez mais buscar sermos nós mesmos.

Isso me fez refletir mais sobre o assunto (pra variar…). Quem acompanha o Crise dos 30 já deve saber que sigo uma quantidade razoável de gente na internet que trabalha com desenvolvimento pessoal e autoconhecimento, e esse discurso parece mesmo estar se disseminando aos quarto cantos: “Seja você mesmo”, “Não espere a aprovação das pessoas”, “Viva a vida nos seus próprios termos”.

E eu concorco. Concordo com tudo isso, de verdade. Acho mesmo que a gente perde tempo demais na vida fazendo o que todo mundo faz, se vestindo como todo mundo se veste, se comportando da maneira que é socialmente esperada, e esquecemos de parar pra perceber quem realmente somos e o que realmente queremos fazer nessa vida. No entanto…

Sempre lembro daquela música do Skank que diz que “tudo tem três lados”…

Embora eu realmente seja uma defensora da ideia de que temos que levantar e fazer por nós mesmos, e lutar por aquilo que acreditamos independentemente da falta de apoio ou opinião contrária que, na maioria das vezes, vai nos cercar por todo canto, também tenho cada vez mais me conectado com uma ideia que acredito ser uma verdade crucial do universo:

Ninguém é sozinho. Estamos todos conectados.

Lembro de uma musiquinha que eu cantava na igreja quando criança que dizia que “sozinho, isolado, ninguém é capaz”, mas ainda assim eu percebo que tenho adquirido, cada vez mais, uma tendência séria de me isolar.

Eu amo escrever! Eu gosto de colocar minhas ideias no papel e adoro a ideia de, pelo simples fato de sentar na frente do computador por algumas horas, poder criar algo totalmente novo, algo que não existia antes e jamais existiria se não fosse por mim. Gosto de poder, através do blog, me comunicar com pessoas que nem conheço e que estão espalhadas por tudo que é canto desse mundo! Por outro lado (tudo tem três lados…) hoje é sábado, tá um frio do cão mas um sol lindo lá fora. Já passou do meio-dia, estou sozinha em casa, ainda não tirei meu pijama e nem escovei os dentes (e talvez passe as próximas duas ou três horas sem sair daqui). Pra fazer o que eu amo, eu preciso estar sozinha, eu preciso estar em silêncio, eu preciso estar concentrada.

Ainda assim, quantas vezes uso o escrever como uma fuga? Como uma forma de me isolar do mundo exterior e ficar aqui, sozinha, no que às vezes é o aconchego mas, em outras, o puro sofrimento do meu silêncio?

A ficha caiu quando eu percebi que, ainda que eu esteja isolada, estou em boa parte do tempo me dedicando a criar algo que, no final das contas, serve pra me comunicar, pra me conectar com pessoas que são, em algum aspecto, parecidas comigo, que se identificam, que gostam do que eu escrevo. O resultado final da minha solidão acaba sendo o compartilhar, acaba sendo o contato (ainda que não físico) com outras pessoas. Se absolutamente ninguém lesse o que posto no Crise dos 30, eu tenho certeza que ele não teria sobrevivido todos os altos e baixos desses dois anos.

O ser humano precisa se encaixar. A gente precisa pertencer. Existe essa necessidade inerente de se encontrar não apenas em si mesmo, mas também naqueles que nos cercam.

E eu realmente não acredito que isso deveria ser motivo de revolta, vergonha ou negação. Eu, aqui no meu mundinho de incertezas, tenho chegado através da minha própria vivência à conclusão que a questão não deveria ser a necessidade ou não de se encaixar, mas sim, a preocupação com AONDE se encaixar.

Não sou psicóloga, mas por outro lado também não tenho dúvida que nossa tendência natural é tentar se encaixar no mundo imediatamente ao nosso redor: na nossa família, com nossos amigos, colegas da escola ou do trabalho, na nossa comunidade, na nossa cidade, no nosso país. Acho que os problemas começam mesmo especialmente quando a gente percebe que não se encaixa nessas primeiras camadas, nas mais próximas da gente. Tem coisa pior do que querer algo na vida que vai totalmente de encontro com os sonhos e opiniões dos próprios pais? Quem nunca ouviu aquela história de “eu queria ser artista mas meu pai e todos os meus irmão são medicos, então existia aquela pressão de eu também seguir o mesmo caminho”?

O mundo tá cheio dessas histórias! E aí, quando a gente não se encaixa naquela única realidade que a gente conhece, a gente se sente a ovelha negra do mundo, o maior incompreendido da face da Terra. Quem nunca?

O negócio é conseguir identificar exatamente aonde a gente quer se encaixar. Existem todos os tipos de tribo no mundo, tenho certeza absoluta que você não é tão diferentão assim que não exista outras centenas, milhares ou mesmo milhões de pessoas entre os 7 BILHÕES que somos, que não pensem, sintam, busquem ou questionem as mesmas coisas que você.

O Crise dos 30 me trouxe essa conexão com pessoas que eu não conheço, que estão espalhadas por aí e com algumas das quais eu certamente jamais me encontrarei pessoalmente – isso é fato. Mas sabe o que é o mais interessante? Ele também me mostrou o outro lado de pessoas que eu conheço, que são da minha família e do meu círculo de amizades, e que através do blog eu descobri que pensam e enxergam a vida de uma forma muito similar a mim, e que eu provavelmente jamais saberia se não tivesse tido a coragem de me expressar, de me colocar no mundo e dizer: “Acho que não me encaixo aqui, não…”

A gente nunca sabe o que está por dentro, mesmo das pessoas mais próximas, até que a gente se permita ser um pouco mais vulnerável e realmente dar a chance de alguém poder te olhar e dizer: “Peraí, você não tá sozinha não! Eu pertenço a essa sua tribo aí também!”.

Pertencer é bom. Se encaixar é gostoso, é prazeroso, é natural. Estar confortável nem sempre é sinônimo de ser acomodado.

Tem uma música da Vânia Abreu (tô musical hoje…) que diz que “ser igual é legal”. E realmente pode ser, contanto que você seja bem criterioso, se conheça e tenha audácia o suficente pra saber – e ser! – igual apenas a quem você quer ser.

Love,

Carol

Carol Sales

Paulista que antes residia em Auckland (agora em período de transição), gosta de sol e mar, de chuva e aconchego, de frio e cobertor. Hoje. Talvez amanhã não goste mais.
Acredita que nada acontece por acaso e que a vida dá seu jeito, e vive numa eterna batalha entre ir pra academia, ler, escrever ou ficar de bobeira pesquisando sonhos na internet - sonhos esses que 99.9% das vezes tem a ver com definir o próximo destino.