Sobre começar de novo (ou… sobre o padrão da fuga)

Hoje estava lendo um post da Flávia Melissa em que ela dizia, entre outras coisas, que “Você pode respirar fundo e tentar de novo”.

Por algum motivo isso bateu fundo e me fez parar pra pensar. Nem lembro do assunto principal do texto, essa foi a única frase que ficou martelando na minha cabeça. Foi como se eu estivesse obtendo permissão ou sendo absolvida por terceiros por todas as vezes em que eu comecei de novo, já que eu mesma talvez não tenha me absolvido dessa culpa.

Me dei conta que, durante praticamente toda a minha vida adulta até então, tenho vivido um ciclo sem fim de eternos recomeços, seja na carreira, nos relacionamentos, nos lugares onde escolhi viver.

Qual é a minha zona de conforto? Parei tempo suficiente em algum lugar (física ou emocionalmente) pra me permitir criar uma?

Isso é bem doido porque a gente tende a associar a tal “zona de conforto” a um lugar, a um emprego, ou até mesmo a um relacionamento. Mas será que é possível criar uma zona de conforto no próprio fato de não se deixar prender a uma? Será que o fato de querer ser livre e a audácia de ousar viver essa liberdade não é apenas uma forma de mascarar o que realmente se sente? Uma bela possibilidade de não ter que conviver com as próprias sombras?

Semana passada participei de um encontro super bacana onde teve uma palestra interessantíssima de uma psicóloga de São Paulo. O intuito era discutir o “largar tudo pra viajar” como instrumento de fuga. Várias pessoas deram suas opiniões, algumas defendendo a perspectiva de que devemos viajar sempre com o intuito da busca, e não da fuga, outros dizendo que tudo bem a viagem ser uma tentativa de fuga, pois algo bom sempre virá disso de qualquer forma.

Eu sou defensora do “se estiver caindo no mundo consciente ou inconscientemente como uma forma de fuga, tudo bem também!”, já que hoje tenho percebido que esse é de certa forma um padrão comportamental que desenvolvi com o tempo e, de qualquer forma, sempre me trouxe crescimento, aprendizado, vivência. Não pensava nessa possível fuga como algo negativo (pra falar a verdade, nunca me permiti pensar muito sobre isso). Não trocaria as experiências que tive por nada.

Mas aí, num dado momento, a psicóloga disse uma coisa que me fez reconsiderar:

“O problema de fugir sistemicamente é que os problemas dos quais você foge só vão aumentando e, quanto mais o tempo passa, mais difícil fica de você resolvê-los”.

 

Eu admito que estou vivendo um momento em que minhas decisões têm me confrontado com verdades que eu não necessariamente gostaria de encarar. Situações e emoções que eu não gostaria de ter ou de vivenciar, e isso tem me feito pensar que está chegando a hora onde eu inevitavelmente terei que encará-las.

(PS: essas emoções são algo que só bem recentemente, tipo assim, há alguns poucos dias, eu tenho começado a reconhecer que existem).

Mas eu me percebi covarde. Eu não quero viver esse confronto.

Isso fica mais claro pra mim quando me pego planejando a “próxima fuga” assim que as mesmas antigas emoções começam a aflorar. Eu não sei lidar com elas. Vai me machucar tanto e vai machucar tanta gente, que me convenço a cada dia que o melhor é simplesmente me retirar da situação, assim tudo aquilo deixa de me pertencer e eu posso fingir que o que me tira do eixo não existe, já que eu não precisarei mais lidar com aquilo no meu dia-a-dia.

Mas volta. Sempre volta.

Das formas mais bizarras. Em situações inimagináveis, que de tão absurdas fazem até a gente dar risada, porque só pode ser piada.

Eu, como uma recém-descoberta e assumida “especialista em fugas”, cheguei a uma amarga conclusão: não tem como fugir do essencial, e aqui uso a palvra ‘essencial’ no sentido mais puro de essência, de quem se é. Você (ou, nesse caso, eu – ou nós, vai saber…) pode até tentar, mas a vida vai dando seu jeito muito louco de nos confrontar com situações mal resolvidas; e tenho a impressão de que vai continuar fazendo até que a gente resolva ficar – e encarar as mazelas todas de peito aberto.

Se não fugirei mais? Não sei. Só sei que aos poucos vou desvendendo mais dos meus próprios mistérios, e assim minhas decisões vão sendo tomadas de forma mais iluminada, mais clara, mais consciente. E esse (pelo menos por enquanto) já é um bom primeiro passo.

E que a gente continue se permitindo novos recomeços, nossos tropeços. Inspira, expira (repete infinitas vezes) e segue em frente.

Love,

Carol

Carol Sales

Paulista que antes residia em Auckland (agora em período de transição), gosta de sol e mar, de chuva e aconchego, de frio e cobertor. Hoje. Talvez amanhã não goste mais.
Acredita que nada acontece por acaso e que a vida dá seu jeito, e vive numa eterna batalha entre ir pra academia, ler, escrever ou ficar de bobeira pesquisando sonhos na internet - sonhos esses que 99.9% das vezes tem a ver com definir o próximo destino.